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Questão FC304212

Sob a velocidade do capital Já se foi o tempo em que valia o ditado “a pressa é inimiga da perfeição”. No mundo de hoje, nos transportes, na comunicação, no trabalho, e até no laze

Tipologia e Gênero Textual

FGV · 2009

Sob a velocidade do capital


Já se foi o tempo em que valia o ditado “a pressa é inimiga da perfeição”. No mundo de hoje, nos transportes, na comunicação, no trabalho, e até no lazer, alta velocidade é uma exigência generalizada. Apesar disso, essa velocidade que rege o mundo atual não é única e nem a percepção das pessoas é singular. Vivemos em tempos múltiplos e em diferentes velocidades.


Para quem nasceu há 80 ou 50 anos atrás, e viveu um tempo definido de algum modo pela velocidade impressa nas possibilidades de comunicação e transportes dos anos 20 e 50 do século passado, não é de estranhar a sensação de velocidade e aceleração vivida nos dias de hoje, explica o sociólogo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) Osvaldo López-Ruiz.


Apesar de ser generalizada a idéia de que o mundo está girando mais depressa, e a sensação de falta de tempo, de que o tempo voa, de que perdemos muito tempo e de que nunca temos tempo suficiente para fazer tudo que desejamos ou que é preciso, a velocidade do mundo hoje não é única. Esta é uma idéia presente na análise de vários pesquisadores do assunto.


Em sua pesquisa com pessoas de diferentes níveis hierárquicos nas organizações, Maria José Tonelli conseguiu enxergar dois grupos: no primeiro estão aqueles que acessam, dominam e dispõem das novas tecnologias – são os executivos, velozes, ultra-rápidos; no segundo, aqueles que ficam alijados desse novo modelo – a faxineira e a copeira de sua amostra. Mas a divisão vai além. Maura Véras, socióloga e reitora da PUC-SP, num estudo sobre a cidade de São Paulo, deparou-se com assincronias urbanas: de um lado, a cidade da elite, em que o tempo é o do deslocamento rápido, seguro e protegido, cujo símbolo é o helicóptero; de outro, a cidade da pobreza, cujo tempo é lento, marcado pelo deslocamento pendular entre “a habitação e o trabalho”. O tempo da pobreza é o do transporte coletivo, do congestionamento e dos riscos. O perverso é que na metrópole paulistana, mesmo correndo pelas escadas rolantes das estações de metrô, a massa de trabalhadores leva horas para se deslocar entre a casa e o trabalho.


O tempo gerido pela velocidade de reprodução do capital e da desigualdade tem outras crueldades. Na avaliação do psiquiatra Paulucci, seus pacientes de classe social mais elevada estão mais sujeitos aos problemas de angústia e estresse relacionados à sobrecarga, à correria e à cobrança excessivas. Entre os seus pacientes de classe social mais baixa há, segundo ele, predominância de transtornos mentais típicos, aqueles popularmente associados à loucura. A tensão cotidiana com que convivem gira em torno de aflições muito concretas: como pagar o aluguel, se terá alimento para os filhos, se o barraco não vai cair, como será o amanhã. “Cada dia é uma luta, porque não têm perspectiva nenhuma. Quem está nesse quadro social vive numa tensão intensa”, completa. Num ritmo de vida mais lento, as pessoas desses estratos sociais também são vítimas, pela exclusão, da alta velocidade ditada pelo capitalismo.


(Texto adaptado de JUSTO, C. In: Com ciência. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico – SBPC http://www.comciencia.br/ comciencia)

 

Com relação à organização do texto, analise as afirmativas a seguir:

 

I. No processo de argumentação, o autor valeu-se de estratégias de persuasão por meio de fatos objetivos.


II. A tese apresentada no primeiro parágrafo é ilustrada por meio da narrativa desenvolvida no segundo.


III. Quanto à tipificação do discurso, observa-se que a construção das estruturas frasais privilegia a função estética da palavra.


Assinale:

  1. se somente a afirmativa I estiver correta.
  2. se somente a afirmativa II estiver correta.
  3. se somente a afirmativa III estiver correta.
  4. se somente as afirmativas I e II estiverem corretas.
  5. se somente as afirmativas I e III estiverem corretas.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A afirmativa I está correta porque o texto apoia sua argumentação em **fatos objetivos** e pesquisas citadas. O autor não se limita a opinar; recorre a estudos e depoimentos — como os de Osvaldo López-Ruiz, Maria José Tonelli, Maura Véras e o psiquiatra Paulucci — para demonstrar a coexistência de temporalidades distintas na sociedade.

Essas referências funcionam como evidência empírica: pesquisas com diferentes estratos sociais, observações sobre deslocamento urbano e relatos clínicos sobre saúde mental fornecem bases concretas que sustentam a tese central.

Assim, a persuasão se dá por **documentação** e **exemplos concretos**, características típicas de um processo argumentativo que utiliza dados e estudos para justificar suas conclusões.

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