Questão FC304389
Texto Literatura e justiça Clarice Lispector Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?).
Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
FGV · 2022
Texto
Literatura e justiça
Clarice Lispector
Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.
“Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também.”
Essa primeira frase do texto poderia ser reescrita de forma mais adequada do seguinte modo:
- Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, de minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
- Hoje, de repente, como num achado verdadeiro, minha tolerância para com os outros também sobrou um pouco para mim;
- De repente, hoje, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
- Como num verdadeiro achado, hoje, de repente, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
- Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros para mim sobrou um pouco também.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa A é correta porque preserva o sentido original e respeita a regência do verbo sobrar. Nesse contexto, trata‑se de sobra parcial: é necessário o uso da preposição de em sobrou um pouco de minha tolerância, indicando a parcela que ficou.
A ordem apresentada é uma inversão estilística: de minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também corresponde a sobrou um pouco de minha tolerância para com os outros para mim também. A inversão é admitida e não altera o sentido.
Os termos Hoje, de repente, como num verdadeiro achado são adjuntos adverbiais deslocados e devem ser isolados por vírgulas, como ocorre na alternativa. Por fim, o “também” está corretamente associado a para mim, indicando que a tolerância vale igualmente para a autora.
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