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Questão FC304667

Eu e ele No vertiginoso mundo dos computadores o meu, que devo ter há uns quatro ou cinco anos, já pode ser definido como uma carroça. Nosso convívio não tem sido muito confortável

Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.

FGV · 2014

Eu e ele


No vertiginoso mundo dos computadores o meu, que devo ter há uns quatro ou cinco anos, já pode ser definido como uma carroça. Nosso convívio não tem sido muito confortável. Ele produz um texto limpo, e é só o que lhe peço. Desde que literalmente metíamos a mão no barro e depois gravávamos nossos símbolos primitivos com cunhas em tabletes até as laudas arrancadas da máquina de escrever para serem revisadas com esferográfica, não havia processo de escrever que não deixasse vestígio nos dedos. Nem o abnegado monge copiando escrituras na sua cela asséptica estava livre do tinteiro virado. Agora, não. Damos ordens ao computador, que faz o trabalho sujo por nós. Deixamos de ser trabalhadores braçais e viramos gerentes de texto. Ficamos pós‐industriais. Com os dedos limpos.

 

Mas com um custo. Nosso trabalho ficou menos respeitável. O que ganhamos em asseio perdemos em autoridade. A um computador não se olha de cima, como se olhava uma máquina de escrever. Ele nos olha na cara. Tela no olho. A máquina de escrever fazia o que você queria, mesmo que fosse a tapa. Já o computador impõe certas regras. Se erramos, ele nos avisa. Não diz “Burro!”, mas está implícito na sua correção. Ele é mais inteligente do que você. Sabe mais coisas, e está subentendido que você jamais aproveitará metade do que ele sabe. Que ele só desenvolverá todo o seu potencial quando estiver sendo programado por um igual. Isto é, outro computador. A máquina de escrever podia ter recursos que você também nunca usaria (abandonei a minha sem saber para o que servia “tabulador”, por exemplo), mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só aguenta os humanos por falta de coisa melhor, no momento.

 

Eu e o computador jamais seríamos íntimos. Nosso relacionamento é puramente profissional. Mesmo porque, acho que ele não se rebaixaria ao ponto de ser meu amigo. E seu ar de reprovação cresce. Agora mesmo, pedi para ele enviar esta crônica para o jornal e ele perguntou: “Tem certeza?”


(Luís Fernando Veríssimo)

 

“pedi para ele enviar esta crônica para o jornal”


Assinale a opção que indica a forma de reescrever‐se essa frase que altera o seu sentido original.

  1. Pedi‐lhe que enviasse esta crônica para o jornal.
  2. Pedi a ele que enviasse esta crônica para o jornal.
  3. Pedi‐lhe o envio desta crônica para o jornal.
  4. Pedi a ele o envio desta crônica para o jornal.
  5. Pedi para ele que envie esta crônica para o jornal.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

Em “Pedi para ele que envie esta crônica para o jornal” ocorre mudança de sentido porque a construção pedir para não tem a mesma regência de pedir a alguém que.

Na norma culta, pedir com oração subordinada prefere a forma pedir a alguém que + subjuntivo (solicitar que a pessoa faça algo). Já pedir para + oração só é aceitável quando se quer exprimir ideia de permissão/autorizaçã o (equivalente a pedir permissão para...).

Logo, a frase da alternativa passa a significar que se pediu (a outrem) autorização para que ele enviasse a crônica — não que se solicitou diretamente a ele que enviasse. Há, portanto, alteração semântica clara em relação ao enunciado original.

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