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Questão FC304701

Os que podem ver mais alto Escrevi, há dias, sobre crítica, arte, cultura. Dizia, em meio a outras coisas, que sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma cons

Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.

FGV · 2013

Os que podem ver mais alto

 

Escrevi, há dias, sobre crítica, arte, cultura.

 

Dizia, em meio a outras coisas, que sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma construção. Em outras palavras: ausente o espírito crítico, passa a valer tudo – inclusive as empulhações do nosso tempo, como a promoção da subliteratura, o horror musical, a infâmia generalizada na área das artes plásticas etc. E, dias depois, li um livro – “A literatura e os deuses” – que me iluminou particularmente sobre essas questões.

 

A falta de crítica (portanto, de uma educação bem fundamentada) impede, entre outras coisas, uma clara visão da cultura e da arte. Ficamos meio cegos, incapazes de perceber seja o que for acima da mediocridade. E aqui entra o livro a que me referi, abordando episódio contado por Apolônio de Rodes sobre os argonautas.

 

Então eles, os heróis, chegaram a uma ilha deserta chamada Tinis, ao alvorecer. Estenderam‐se na praia para descansar – e eis que surge o deus Apolo: “Áureos cachos flutuavam, enquanto avançava; na mão esquerda segurava um arco de prata, às costas levava uma aljava; e, sob os seus pés, toda a ilha fremia, e as ondas se agigantavam na praia.” Quando o deus se vai, voando sobre o oceano, os heróis, por sugestão de Orfeu, consagram‐lhe a ilha e oferecem‐lhe um sacrifício.

 

Comenta o autor do livro: “Todos têm a mesma visão, todos sentem idêntico terror, todos colaboram na construção do santuário. Mas o que ocorre se não existem argonautas, se não existem mais testemunhas de tal experiência?”

 

Os heróis puderam ver Apolo porque tinham seus espíritos preparados para o que está além do terrestre e imediato. Apolo é o patrono das artes, o deus da inspiração, entre outras coisas. Em terra de gente que lê sem ler, que ouve sem ouvir, que vê sem ver, ele costuma permanecer invisível. Como no Brasil, cujos gestores e políticos promovem apenas o entretenimento vazio, relegando ao ostracismo a Educação e as Artes – temerosos de que o eleitor venha a ser um dia capaz de olhares altos e lúcidos como os dos argonautas...

 

(Ruy Espinheira Filho. Adaptado)

 

“...sem crítica não se pode desenvolver um gosto, pois que ele é uma construção”. A forma de reescrever‐se essa mesma frase que mantém o seu sentido original é:

  1. só se pode desenvolver um gosto, visto que ele é uma construção, sem crítica.
  2. não se pode desenvolver um gosto sem crítica, já que ela é uma construção.
  3. sendo um gosto uma construção, sem crítica não se pode desenvolvê‐lo.
  4. em virtude de a crítica ser uma construção, sem um gosto não se pode desenvolvê‐la.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa correta reconstitui as mesmas relações do enunciado: afirma que um gosto é uma construção e que, por isso, sem crítica não se desenvolve.

A oração introdutória sendo um gosto uma construção funciona como adjunto conjuntivo circunstancial de causa/condição, equivalendo a «pois que ele é uma construção» do original. Mantém-se, portanto, a razão pela qual o desenvolvimento do gosto depende da crítica.

No período principal, a negação «sem crítica não se pode» conserva a ideia central de impossibilidade. O pronome enclítico «-lo» retoma um gosto, preservando a coesão e o sentido do segmento original.

Assim, a versão é fiel semanticamente e gramaticalmente ao enunciado de partida, com economia e correção na colocação pronominal.

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