Questão FC304713
A Nova Praga Não é preciso ter assistido nem à primeira aula de Latim – no tempo em que existia em nossas escolas essa disciplina, cuja ausência foi um desastre para o aprendizado
Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
FGV · 2013
A Nova Praga
Não é preciso ter assistido nem à primeira aula de Latim – no tempo em que existia em nossas escolas essa disciplina, cuja ausência foi um desastre para o aprendizado da Língua Portuguesa – para saber que o étimo de nosso substantivo areia é o latim "arena". E, se qualquer pessoa sabe disso até por um instinto primário, é curioso, para usar um termo educado, como nossos locutores e comentaristas de futebol, debruçados sobre um gramado verde‐verdinho, chamam‐no de "arena", numa impropriedade gritante.
Nero dava boas gargalhadas, num comportamento que já trazia latente a sua loucura final, quando via os cristãos lutando contra os leões na arena. Nesse caso, se havia rictus de loucura na face do imperador, pelo menos o termo era totalmente apropriado: o chão da luta dramática entre homem e fera era de areia. Está aí para prová‐lo até hoje o Coliseu.
(....) Mas – ora bolas! –, se o chão é de relva verdejante, é rigorosamente impróprio chamar de “arena” nossos campos de futebol, como fazem hoje. O diabo é que erros infelizmente costumam se espalhar como uma peste, e nem será exagero dizer que, neste caso, o equívoco vem sendo tão contagioso como a peste negra que, em números redondos, matou 50 milhões de pessoas na Europa e na Índia no século XIV. E os nossos pobres ouvidos têm sido obrigados a aturar os nossos profissionais que transmitem espetáculos esportivos se referirem à arena daqui, à arena de lá, à arena não sei de onde. Assim, já são dezenas de arenas por esse Brasilzão. O velho linguista e filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho (1909‐1985), a cujo livro mais conhecido peço emprestado o título deste pequeno artigo, deve estar se revirando no túmulo diante da violência de tal impropriedade. O bom Alves era cego, ou quase isso, mas via como ninguém os crimes cometidos contra o idioma.
(Marcos de Castro. www.observatoriodaimprensa.com.br)
“O bom Aires via (....) como ninguém os crimes cometidos contra o idioma”.
Assinale que apresenta a forma de reescrever‐se essa mesma frase que altera o seu sentido original.
- O bom Aires via mais do que todos os crimes cometidos contra o idioma.
- Como todos, o bom Aires via mais os crimes cometidos contra o idioma.
- O bom Aires via os crimes cometidos contra o idioma como ninguém.
- Os crimes cometidos contra o idioma eram vistos, como ninguém, pelo bom Aires.
- Ninguém via, como o bom Aires, os crimes cometidos contra o idioma.
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Gabarito
B
Comentário do professor
"O bom Aires via (....) como ninguém os crimes cometidos contra o idioma."
Na frase original, “como ninguém” indica exclusividade: o bom Aires percebia os crimes contra o idioma de modo mais agudo que todas as outras pessoas — ou seja, ninguém via aquilo do mesmo jeito que ele.
A reescrita proposta em B — “Como todos, o bom Aires via mais os crimes cometidos contra o idioma.” — inverte esse sentido ao empregar “Como todos”, que passa a ideia de que ele via tal como as demais pessoas, anulando a exclusividade do original.
Além disso, a colocação de “mais” torna a expressão ambígua (verbo + advérbio), reforçando a mudança semântica: a prioridade de percepção atribuída originalmente a Aires é perdida.
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