Questão FC304768
Sob a velocidade do capital Já se foi o tempo em que valia o ditado “a pressa é inimiga da perfeição”. No mundo de hoje, nos transportes, na comunicação, no trabalho, e até no laze
Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
FGV · 2009
Sob a velocidade do capital
Já se foi o tempo em que valia o ditado “a pressa é inimiga da perfeição”. No mundo de hoje, nos transportes, na comunicação, no trabalho, e até no lazer, alta velocidade é uma exigência generalizada. Apesar disso, essa velocidade que rege o mundo atual não é única e nem a percepção das pessoas é singular. Vivemos em tempos múltiplos e em diferentes velocidades.
Para quem nasceu há 80 ou 50 anos atrás, e viveu um tempo definido de algum modo pela velocidade impressa nas possibilidades de comunicação e transportes dos anos 20 e 50 do século passado, não é de estranhar a sensação de velocidade e aceleração vivida nos dias de hoje, explica o sociólogo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) Osvaldo López-Ruiz.
Apesar de ser generalizada a idéia de que o mundo está girando mais depressa, e a sensação de falta de tempo, de que o tempo voa, de que perdemos muito tempo e de que nunca temos tempo suficiente para fazer tudo que desejamos ou que é preciso, a velocidade do mundo hoje não é única. Esta é uma idéia presente na análise de vários pesquisadores do assunto.
Em sua pesquisa com pessoas de diferentes níveis hierárquicos nas organizações, Maria José Tonelli conseguiu enxergar dois grupos: no primeiro estão aqueles que acessam, dominam e dispõem das novas tecnologias – são os executivos, velozes, ultra-rápidos; no segundo, aqueles que ficam alijados desse novo modelo – a faxineira e a copeira de sua amostra. Mas a divisão vai além. Maura Véras, socióloga e reitora da PUC-SP, num estudo sobre a cidade de São Paulo, deparou-se com assincronias urbanas: de um lado, a cidade da elite, em que o tempo é o do deslocamento rápido, seguro e protegido, cujo símbolo é o helicóptero; de outro, a cidade da pobreza, cujo tempo é lento, marcado pelo deslocamento pendular entre “a habitação e o trabalho”. O tempo da pobreza é o do transporte coletivo, do congestionamento e dos riscos. O perverso é que na metrópole paulistana, mesmo correndo pelas escadas rolantes das estações de metrô, a massa de trabalhadores leva horas para se deslocar entre a casa e o trabalho.
O tempo gerido pela velocidade de reprodução do capital e da desigualdade tem outras crueldades. Na avaliação do psiquiatra Paulucci, seus pacientes de classe social mais elevada estão mais sujeitos aos problemas de angústia e estresse relacionados à sobrecarga, à correria e à cobrança excessivas. Entre os seus pacientes de classe social mais baixa há, segundo ele, predominância de transtornos mentais típicos, aqueles popularmente associados à loucura. A tensão cotidiana com que convivem gira em torno de aflições muito concretas: como pagar o aluguel, se terá alimento para os filhos, se o barraco não vai cair, como será o amanhã. “Cada dia é uma luta, porque não têm perspectiva nenhuma. Quem está nesse quadro social vive numa tensão intensa”, completa. Num ritmo de vida mais lento, as pessoas desses estratos sociais também são vítimas, pela exclusão, da alta velocidade ditada pelo capitalismo.
(Texto adaptado de JUSTO, C. In: Com ciência. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico – SBPC http://www.comciencia.br/ comciencia)
O perverso é que na metrópole paulistana, mesmo correndo pelas escadas rolantes das estações de metrô, a massa de trabalhadores leva horas para se deslocar entre a casa e o trabalho.
Assinale a alternativa que, mantendo o padrão culto escrito e preservando o sentido original, apresente outra possibilidade de redação para o fragmento destacado acima.
- embora corram pelas escadas rolantes das estações do metrô.
- se bem que corre pelas escadas rolantes das estações do metrô.
- sobretudo correndo pelas escadas rolantes das estações do metrô.
- ainda que correndo pelas escadas rolantes das estações do metrô.
- visto que correndo pelas escadas rolantes das estações do metrô.
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Gabarito
D
Comentário do professor
"Ainda que" confere à oração o valor concessivo: indica contraste entre a ação expressa na subordinada e o fato principal, sem anulá-lo. Assim, a construção significa que, apesar da pressa indicada, o resultado (leve-se horas) permanece.
O uso do gerúndio (correndo) é adequado aqui porque expressa ação simultânea e contínua em relação ao enunciado principal, mantendo a referência ao sujeito da frase — a massa de trabalhadores — sem necessidade de flexão verbal que alterasse a concisão do período.
A expressão "estações do metrô" e a pontuação preservam o padrão culto e o sentido original: clareza, formalidade e a ênfase na contradição entre aparência de rapidez e a lentidão efetiva do deslocamento.
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