Questão FC313525
Escorrendo Aos 5 anos de idade o mundo é esmagadoramente mais forte do que a gente. (Aos 30 também, mas aprendemos umas manhas que, se não anulam a desproporção, ao menos disfarçam
Ortografia
IBADE · 2024
Escorrendo
Aos 5 anos de idade o mundo é esmagadoramente mais forte do que a gente. (Aos 30 também, mas aprendemos umas manhas que, se não anulam a desproporção, ao menos disfarçam nossa pequenez.)
A ignorância não é uma bênção, é uma condenação: compreender a origem dos nossos incômodos faz uma grande diferença. Mas como, com tão poucas palavras ao nosso dispor? Palavras são ferramentas que usamos para desmontar o mundo e remontá-lo dentro da nossa cabeça.
Sem as ferramentas precisas, ficamos a espanar parafusos com pontas de facas, a destruir porcas com alicates.
Com 2 anos, meu nariz escorria sem parar na sala de aula.
Eu não sabia assoar, nem sequer sabia que existia isto: assoar. Apenas enxugava o que descia na manga do uniforme, conformado, até ficar com o nariz assado.
Lembro-me bem da sensação da meia sendo comida pela galocha enquanto eu andava. A cada passo, ela ia se engorovinhando mais e mais na frente do pé, faltando no calcanhar, e eu aceitava o infortúnio como se fosse uma praga rogada pelos deuses, uma sina. Não passava pela minha cabeça trocar de meia, desistir da galocha, pedir ajuda aos adultos: a vida era assim, não havia o que fazer.
Numas férias, meu pai apareceu antes do combinado para pegar minha irmã e eu na casa dos meus avós. Durante 400 quilômetros, falou que existiam pessoas boas e pessoas más, que aconteciam coisas que a gente não conseguia entender, que mesmo as pessoas más podiam fazer coisas boas e as pessoas boas, coisas más. Já quase chegando a São Paulo, contou que nosso vizinho, de 6 anos, tinha levado um tiro. Naquela noite, enquanto as crianças da rua brincavam – mais quietas do que o habitual, sob um véu inominável –, um dos garotos disse: “Bem feito! Ele é muito chato”.
Hoje, penso que pode ter sido sua maneira de lidar com uma realidade esmagadoramente mais forte do que ele.
Meu vizinho, felizmente, sobreviveu. Nossa ingenuidade é que não: ficou ali, estirada entre amendoeiras e paralelepípedos, sendo iluminada pela lâmpada intermitente de mercúrio, depois que todas as crianças voltaram para suas casas.
Fonte: Crônica de Antônio Prata. Escorrendo. Disponível em: https://novaescola.org.br
/arquivo/vem-que-eu-te-conto/pdf/escorrendo.pdf
Observando-se o vocábulo “pequenez”, constata-se que é formado por acréscimo do “-ez” à palavra pequeno.
A opção em que não se enquadra nesse modelo de formação, sendo escrito com S, e não com Z, é:
- pedrez.
- aridez
- nitidez
- escassez
- rispidez
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
A
Comentário do professor
Pedrez é a opção correta porque se trata de uma forma **inexistente** na norma culta: não há derivação estabelecida *pedrez* em português.
O sufixo -ez/-eza forma nomes abstratos de qualidade a partir de adjetivos e é grafado com z, por exemplo aridez (de árido) ou rudez (de rude). Há casos em que a forma resulta em -ez mesmo que o adjetivo original sofra alteração.
Como não existe um adjetivo-base regular que gere pedrez pela adição desse sufixo, a palavra é incorreta e, portanto, não se enquadra no padrão de formação por -ez/-eza.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em