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Questão FC313993

DISTÂNCIA TEM CURA Em quase trinta anos atendendo doentes em cadeias, jamais ouvi um desaforo, uma palavra áspera, uma reivindicação mal-educada. Às vezes, fica difícil acreditar q

Sintaxe

IBADE · 2023

DISTÂNCIA TEM CURA

 

Em quase trinta anos atendendo doentes em cadeias, jamais ouvi um desaforo, uma palavra áspera, uma reivindicação mal-educada. Às vezes, fica difícil acreditar que pessoas tão respeitosas com o médico tenham cometido os crimes que constam de seus prontuários. Profissão caprichosa a medicina, capaz de criar empatia mútua entre dois estranhos em questão de minutos.

 

A tendência natural é a de nos aproximarmos de pessoas da mesma classe social, com gostos, ideias, posições políticas e estilos de vida semelhantes aos nossos. Embora esse formato de convivência nos traga conforto, não abre espaço para o contraditório nem dá acesso a modos de pensar e de viver radicalmente diferentes. Impossível imaginar como eu chegaria aos 73 anos se não fosse a experiência nos presídios, mas sei que saberia menos medicina e desconheceria aspectos da alma humana aos quais só tive acesso porque me dispus a chegar perto daqueles que a sociedade tranca atrás de grades.

 

O fascínio infantil pelo mundo marginal que me conduziu ao Carandiru ainda persiste. Não faço esse trabalho voluntário que me toma um período da semana há tantos anos por motivações religiosas ou engajamento ideológico de qualquer natureza — sou avesso a religiões e ideologias —, mas porque posso dispor desse tempo e manter aceso o interesse pela complexidade das interações humanas, sem o qual viver perde o encanto.

(VARELLA, Drauzio. Prisioneiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, ed. Ebook.)

 

“[...] jamais ouvi um desaforo [...].” 1º§

 

O termo destacado exerce a seguinte função sintática:

  1. sujeito.
  2. objeto direto.
  3. objeto indireto.
  4. complemento nominal.
  5. predicativo.
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Gabarito

B

Comentário do professor

No trecho “[...] jamais ouvi um desaforo [...]”, a expressão destacada exerce a função de objeto direto.

Isso porque o verbo ouvir é transitivo direto e precisa de um complemento que lhe complete o sentido sem o uso de preposição. Perguntando-se “ouvi o quê?”, respondemos “um desaforo”, identificando claramente o objeto.

Morfo-sintaticamente, trata-se de um sintagma nominal cujo núcleo é o substantivo “desaforo”. A possibilidade de pronominalização confirma a função: “Jamais o ouvi.” (onde “o” retoma “um desaforo”).

Portanto, “um desaforo” é o complemento verbal direto que completa o sentido de ouvi.

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