Questão FC314577
Escorrendo Aos 5 anos de idade o mundo é esmagadoramente mais forte do que a gente. (Aos 30 também, mas aprendemos umas manhas que, se não anulam a desproporção, ao menos disfarçam
Tipologia e Gênero Textual
IBADE · 2024
Escorrendo
Aos 5 anos de idade o mundo é esmagadoramente mais forte do que a gente. (Aos 30 também, mas aprendemos umas manhas que, se não anulam a desproporção, ao menos disfarçam nossa pequenez.)
A ignorância não é uma bênção, é uma condenação: compreender a origem dos nossos incômodos faz uma grande diferença. Mas como, com tão poucas palavras ao nosso dispor? Palavras são ferramentas que usamos para desmontar o mundo e remontá-lo dentro da nossa cabeça.
Sem as ferramentas precisas, ficamos a espanar parafusos com pontas de facas, a destruir porcas com alicates.
Com 2 anos, meu nariz escorria sem parar na sala de aula.
Eu não sabia assoar, nem sequer sabia que existia isto: assoar. Apenas enxugava o que descia na manga do uniforme, conformado, até ficar com o nariz assado.
Lembro-me bem da sensação da meia sendo comida pela galocha enquanto eu andava. A cada passo, ela ia se engorovinhando mais e mais na frente do pé, faltando no calcanhar, e eu aceitava o infortúnio como se fosse uma praga rogada pelos deuses, uma sina. Não passava pela minha cabeça trocar de meia, desistir da galocha, pedir ajuda aos adultos: a vida era assim, não havia o que fazer.
Numas férias, meu pai apareceu antes do combinado para pegar minha irmã e eu na casa dos meus avós. Durante 400 quilômetros, falou que existiam pessoas boas e pessoas más, que aconteciam coisas que a gente não conseguia entender, que mesmo as pessoas más podiam fazer coisas boas e as pessoas boas, coisas más. Já quase chegando a São Paulo, contou que nosso vizinho, de 6 anos, tinha levado um tiro. Naquela noite, enquanto as crianças da rua brincavam – mais quietas do que o habitual, sob um véu inominável –, um dos garotos disse: “Bem feito! Ele é muito chato”.
Hoje, penso que pode ter sido sua maneira de lidar com uma realidade esmagadoramente mais forte do que ele.
Meu vizinho, felizmente, sobreviveu. Nossa ingenuidade é que não: ficou ali, estirada entre amendoeiras e paralelepípedos, sendo iluminada pela lâmpada intermitente de mercúrio, depois que todas as crianças voltaram para suas casas.
Fonte: Crônica de Antônio Prata. Escorrendo. Disponível em: https://novaescola.org.br
/arquivo/vem-que-eu-te-conto/pdf/escorrendo.pdf
A caracterização do texto “Escorrendo” como crônica ocorre porque:
- é possível perceber, ao final do texto, uma crítica sobre a infância e a violência.
- é um texto jornalístico, e tem o objetivo principal de transmitir acontecimentos.
- o objetivo do texto é realizar uma crítica ao estilo de vida das pessoas más.
- através da narrativa, ao partir de experiências individuais, até corriqueiras, alcança vivências coletivas.
- é um relato subjetivo de experiências individuais, com caráter filosófico, com intuito de transmitir um ensinamento.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A opção escolhida aponta que a crônica funciona “através da narrativa, ao partir de experiências individuais, até corriqueiras, alcança vivências coletivas.”
Isso se confirma porque o texto narra lembranças íntimas — o nariz escorrendo, a meia na galocha, a conversa com o pai — com linguagem pessoal e memória afetiva. Essas cenas são pequenas e cotidianas, características típicas da crônica.
Ao relacionar essas experiências ao episódio do vizinho baleado e à reação das crianças, o autor amplia o foco: a partir do particular chega-se a uma reflexão sobre a ingenuidade infantil e a dureza do mundo, transformando o individual em significado coletivo.
Portanto, a alternativa sintetiza a operação central do gênero: partindo do corriqueiro, a narrativa alcança uma observação mais ampla da vida social e humana.
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