Questão FC316963
Leia o texto abaixo. Vaca Estrela e Boi Fubá Seu dotô, me dê licença Pra minha histora eu contá. Se hoje eu tou na terra estranha E é bem triste o meu pená, Mas já fui muito feliz
Linguagem
Com. Org. (IFSP) · 2018
Leia o texto abaixo.
Vaca Estrela e Boi Fubá
Seu dotô, me dê licença
Pra minha histora eu contá.
Se hoje eu tou na terra estranha
E é bem triste o meu pená,
Mas já fui muito feliz
Vivendo no meu lugá.
Eu tinha cavalo bom,
Gostava de campeá
E todo dia aboiava
Na portêra do currá.
Ê ê ê ê Vaca Estrela,
Ô ô ô ô Boi Fubá.
Eu sou fio do Nordeste,
Não nego o meu naturá
Mas uma seca medonha
Me tanjeu de lá pra cá.
Lá eu tinha meu gadinho
Não é bom nem maginá,
Minha bela Vaca Estrela
E o meu lindo Boi Fubá,
Quando era de tardezinha
Eu começava a aboiá.
Ê ê ê ê Vaca Estrela,
Ô ô ô ô Boi Fubá.
Aquela seca medonha
Fez tudo se trapaiá;
Não nasceu campim no campo
Para o gado sustentá
, O sertão esturricou,
Fez os açude secá,
Morreu minha Vaca Estrela,
Se acabou meu Boi Fubá,
Perdi tudo quanto tinha
Nunca mais pude aboiá.
Ê ê ê ê Vaca Estrela,
Ô ô ô ô Boi Fubá.
E hoje, nas terra do Su,
Longe do torrão natá,
Quando vejo em minha frente
Uma boiada passá,
As água corre dos óio,
Começo logo a chorá,
Me lembro da Vaca Estrela,
Me lembro do Boi Fubá;
Com sodade do Nordeste
Dá vontade de aboiá.
Ê ê ê ê Vaca Estrela,
Ô ô ô ô Boi Fubá.
ASSARÉ, Patativa do. Patativa do Assaré. Antologia poética. Organização e prefácio de Gilmar de Carvalho. 8. ed., Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2010, p. 166-167.
A variedade linguística encontrada no texto retrata
- a linguagem de um migrante que de modo habitual se mostra adaptado, no uso cotidiano que faz da língua, à norma padrão culta.
- as formas linguísticas de padrão culto que são próprias de um habitante do sul do Brasil, ainda que tenha morado em outra região do país.
- a atividade social do eu lírico que requer o uso de certas formas da língua, a fim de haver comunicação entre as pessoas de seu grupo envolvidas na interação.
- as relações de proximidade do eu lírico, numa situação comunicativa, com o padrão linguístico frequentemente encontrado em regiões com pouco acesso à escolarização.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa D aponta corretamente que a variedade linguística do poema espelha a relação direta do eu lírico com uma forma de fala regional e oral, expressa numa situação comunicativa íntima (vocativo "Seu dotô", primeira pessoa, narrativa direta).
Os traços evidentes — grafia fonética que reproduz pronúncias (dotô, contá, tou, lugá, currá, naturá, sodade, aboiá), queda ou alteração de fonemas finais e vocabulário regional — funcionam como marcas de uma variedade não padrão falada no interior do Nordeste.
Do ponto de vista sociolinguístico, tais marcas não são meros erros, mas sinais de um padrão linguístico associado a áreas com pouco acesso à escolarização, onde a oralidade e a tradição cultural moldam a linguagem do eu lírico.
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