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Questão FC317006

Que diabos significa ter “qualidade de vida”? Respirar ar puro? Viver sem estresse? Poder desacelerar o ritmo de trabalho?

Interpretação de Textos (Compreensão)

Com. Org. (IFSP) · 2016

Morar no campo e a

“qualidade de vida ”


Luis Gonzaga Fragoso


Moro numa chácara. Lugar com verde exuberante. Tucano, beija-flor, quero-quero, e mais uma infinidade de pássaros fazem o pano de fundo musical.


Para terem uma ideia do sossego, escrevo em pleno dia de Carnaval. O praticumbum- bungurundum do vizinho durou meia hora, se muito.


Volta e meia, um visitante solta o comentário: “Aqui, sim, vocês têm qualidade de vida!”.


Ao ouvir isso pela primeira vez – há seis anos –, pensei, todo pimpão: “É verdade!”.


Da segunda vez em diante, comecei a ficar encafifado. Cada vez mais, a frase me cheira a slogan publicitário. Lenga-lenga de anúncio de condomínio fechado.


Que diabos significa ter “qualidade de vida”? Respirar ar puro? Viver sem estresse? Poder desacelerar o ritmo de trabalho?


Em tese, isso tudo acontece. Mas… a decisão de deixar a metrópole para morar no campo fará de mim um cara zen, com uma rotina tambémzen? Ora, a própria natureza do meu trabalho pode me transformar, fácil, num “workaholic”.


A mera mudança de paisagem, estar rodeado de verde em vez de concreto, pode muito bem ser inócua. Exemplo disso: nosso ex-vizinho, da primeira chácara em que moramos, era a antítese da imagem que se faz do homem do campo. Estressado como só ele. E já morava ali há 15 anos!


Aliás, não é incomum que, engatado à frase que louva nossa “qualidade de vida”, apareça o comentário: “Bendita hora que vocês saíram daquele inferno que é São Paulo”.


Pigarro. Pigarro duplo. Pois o que me levou a deixar a metrópole nada tem a ver com estar farto dos problemas da cidade. Aconteceu de estarmos  disponíveis para os movimentos do universo. Numa bela manhã, minha mulher e eu viemos visitar uma chácara, e nossa intuição sussurrou: “Este lugar é pra vocês, e este é o momento, venham pra cá!”. E m dois meses mudamos, de mala e cuia.


Saí em paz com a metrópole, e nela voltaria a morar, caso necessário. Adoro o lufa-lufa de São Paulo. Mas também adoro as várias pausas que cultivo aqui. Movimento e repouso, essa dança me faz muito bem.


O problema básico na busca da “qualidade de vida” me parece ser a crença do indivíduo de que um fator externo – paisagem física, silêncio, distância distância considerável de vizinhos, etc – pode operar uma mágica em sua vida. Bobagem. E nessa crença está embutido um condicionamento nocivo: o hábito de culpar as circunstâncias externas e a paisagem física por suas frustrações. Com isso, evita-se assumir uma responsabilidade que demanda energia e empenho – mudar o que não lhe agrada e que o faz infeliz.

 

Mas, da próxima vez que me deparar com o louvor à tal “qualidade de vida”, posso poupar meu visitante deste discurso verborrágico que você, paciente leitor, acaba de aturar. A ideia é sair à francesa e colocar o CD Refavela de Gilberto Gil para tocar baixinho, na faixa Aqui Agora, cujo refrão sintetiza isso tudo: O melhor lugar do mundo é aqui e agora.


Disponível em: e-qualidade-de-vida/>. Acesso em: mar. 2016.

 

Identifique o item que melhor expressa a ideia central do texto de Luis Gonzaga Fragoso:

  1. O campo é um excelente lugar para se recuperar da agitação das metrópoles.
  2. A paz e o equilíbrio interior do indivíduo não estão necessariamente relacionados ao local onde ele vive.
  3. O excesso de trabalho prejudica a qualidade de vida do brasileiro.
  4. Para ser zen, precisa-se da quietude e do ar puro do campo.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A alternativa aponta corretamente que a paz e o equilíbrio interior não decorrem automaticamente do local onde se vive. O autor critica o rótulo de “qualidade de vida” como slogan e alerta que mudar de paisagem não garante transformação pessoal.

Provas no texto: ele admite que o próprio trabalho pode torná‑lo workaholic mesmo no campo e lembra o vizinho estressado que já vivia ali há 15 anos. Esses exemplos mostram que o ambiente físico é insuficiente para explicar o bem‑estar.

Além disso, o autor afirma ter saído da cidade por intuição, não por fuga, e valoriza a alternância entre movimento e repouso como prática pessoal. A mensagem central é que a mudança efetiva depende de atitudes internas, não só de circunstâncias externas.

Em síntese: a felicidade é uma conquista interna; “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”.

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