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Questão FC326821

Texto 1 UMA BIOGRAFIA IMPROVÁVEL O vírus é o parasita por excelência, incapaz de ser protagonista da própria vida. Ele precisa da ajuda de uma célula, da qual se apropria à força,

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBGP · 2020

Texto 1

 

UMA BIOGRAFIA IMPROVÁVEL

 

O vírus é o parasita por excelência, incapaz de ser protagonista da própria vida. Ele precisa da ajuda de uma célula, da qual se apropria à força, sequestrando certas partes, para conseguir se replicar. Quando não está usufruindo do seu hospedeiro, o vírus navega pelo mundo, como um barco à deriva, esperançoso de encontrar uma ilha – um ser vivo dotado de células compatíveis com o seu material genético – onde possa atracar. Por vezes, o encontro é violento, ou patogênico, em termos técnicos: o náufrago se faz dono da ilha, consome todos seus recursos e vai embora depois, ainda faminto, rumo a ilhas similares (não sem antes se reproduzir aos milhares, para otimizar a nova empreitada). É essa a relação que temos com o novo coronavírus.

 

A segunda forma de o vírus se relacionar com o hospedeiro, e a mais comum, pelo que se sabe, é classificada na categoria “comensal”. Nesse encontro, o náufrago habita a ilha de forma sustentável, pesca seus peixes, bebe seus cocos, tomando cuidado para não extinguir nenhum recurso natural. Em outras palavras: o vírus vive dentro da célula, faz uso do maquinário dela, mas não a adoece. Não espalha seu material genético com tanta rapidez nem tenta matar aquela que tão bem o acolheu. É o tipo de relação menos estudada, justamente porque não provoca nenhum dano constatável.

 

Há ainda um tipo de interação de característica “mutualista”, em que tanto o vírus quanto o hospedeiro se beneficiam. Nesse encontro, o náufrago não só respeita as condições da ilha, como resolve aproveitar um terreno baldio para cultivar uma horta. A relação mutualista é como um casamento arranjado que tem tudo para não funcionar, mas acaba prosperando, por obra do acaso e pela capacidade de adaptação de cada cônjuge. Um exemplo: quando infectado com um tipo de densovírus, o piolho-cinzento-da-macieira desenvolve asas que o ajudam a alcançar novas plantas. Outro exemplo: certas abóboras se tornam menos atraentes para o besouro – uma praga – quando infectadas por uma espécie de potyvírus. Há vários casos. Uma infecção por herpes pode proteger camundongos contra a peste bubônica. O vírus da hepatite G retarda o desenvolvimento do HIV em humanos.

 

Virologistas gostam de dizer que o vírus é o organismo mais abundante no mundo. A estimativa é hipotética, dado que apenas 6 590 espécies foram catalogadas (a título de comparação, cientistas já descreveram mais de 1,2 milhão de organismos celulares). Ainda assim, faz sentido quando se pensa que cada espécie de bactéria, protozoário, fungo, planta e animal é infectada por seus vírus particulares. O Sars-CoV-2 é ilustrativo: habitava morcegos e pangolins, com os quais tinha uma relação saudável – como a do náufrago que usufrui da ilha sem esgotá-la – até sofrer uma mutação espontânea, que o tornou compatível com humanos. Foi assim que surgiu a Covid-19, sigla em inglês para a doença do coronavírus de 2019, quando o primeiro caso foi registrado na província chinesa de Wuhan.

 

“Quando um vírus encontra um novo hospedeiro, ele costuma causar uma doença muito severa, já que o corpo ainda não está preparado para combatê-lo”, explicou Zerbini [virologista, Francisco Murilo Zerbini, da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais.] “Com o passar do tempo, a tendência é que ele se torne menos nocivo.” A reconfiguração ocorre tanto por obra do organismo infectado, que vai criando anticorpos para combater o intruso, quanto do próprio vírus, que lucra mais, em termos de perpetuação genética, se mantiver o hospedeiro vivo, espalhando suas cópias como uma arma biológica. “Um vírus que te deixa de cama e te mata em questão de dias não vai ser transmitido para muita gente”, disse Zerbini. “Nesse sentido o novo coronavírus está na infância, já que nunca coevoluiu com o ser humano. É capaz de ele causar uma doença muito menos grave daqui a cinco ou dez anos.”

 

KAZ, Roberto. Uma biografia improvável. Revista Piauí, Edição 164, maio 2020. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/umabiografia- improvavel/. Acesso em: 7 de junho de 2020.

 

Em relação às diferentes formas de o vírus se relacionar com o hospedeiro, é CORRETO afirmar que uma delas se caracteriza por ser:

  1. Comensal àquela forma integrativa que visa exaurir os recursos fonte, presentes em hospedeiro compatível.
  2. Comensal à forma nociva que espalha seu material genético e conduz à falência a célula onde vive.
  3. Mutualista àquela forma danosa que evidencia uma prevalência do vírus sobre o seu hospedeiro.
  4. Mutualista à forma interativa que resulta de uma adaptação casual e recíproca, com benefício das partes.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa Mutualista é correta porque descreve uma interação em que vírus e hospedeiro se beneficiam mutuamente, resultado de uma adaptação casual e de ajustes recíprocos entre as partes. No texto, o autor compara essa relação ao náufrago que não só respeita a ilha como passa a cultivá-la, ilustrando o caráter vantajoso e espontâneo desse encontro.

Exemplos citados mostram o benefício mútuo: um densovírus faz o piolho desenvolver asas, certas abóboras ficam menos atrativas a pragas quando infectadas por potyvírus, e infecções virais podem proteger ou retardar outras doenças em mamíferos. Esses casos confirmam o conceito de mutualismo: interação vantajosa para ambos os lados.

Portanto, a alternativa resume fielmente a definição e os exemplos apresentados no texto.

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