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Questão FC326934

Texto 1 - A leitura desavergonhada O ano de 1513 não foi gentil com Nicolau Maquiavel. Em uma das célebres confusões políticas da Itália renascentista, o astuto diplomata e delicio

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBGP · 2017

Texto 1 - A leitura desavergonhada

 

O ano de 1513 não foi gentil com Nicolau Maquiavel. Em uma das célebres confusões políticas da Itália renascentista, o astuto diplomata e delicioso prosador foi arrancado do posto de chanceler, que ocupara por catorze anos em sua cidade natal, Florença. Conheceu as noites do calabouço, suportou a tortura, foi condenado ao exílio. Uma recompensa o aguardava, contudo, ao fim da tormenta. Escorraçado da carreira política, Maquiavel agora tinha tempo para fazer o que mais amava: ler. Todas as noites, em sua casa no vilarejo de San Casciano, vestia-se com roupas de cerimônia, como se fosse a uma festa cortesã, e adentrava solenemente a biblioteca.

 

“Lá não me envergonho de falar com as grandes almas do passado, e elas, em sua humanidade, me respondem”, contou em uma carta ao amigo Francesco Vettori. “Pelo espaço” de quatro horas não sou afetado pelo tédio, esqueço todas as dores, não temo a pobreza, e a morte não me assusta. ”.

 

Nicolau Maquiavel lia por prazer. Naturalmente, também o fazia por outros motivos: instrução, entendimento e o que hoje chamaríamos de pesquisa bibliográfica (foi em 1513, aliás, que começou a escrever O Príncipe). Porém ninguém “esquece todas as dores” apenas cumprindo um dever; ninguém transcende o tédio da existência por meio de circunspecções burocráticas. O prazer da leitura – prazer que pode ser tão desavergonhado quanto qualquer outro – é uma das benesses que ganhamos, entre tantas agruras, por termos nascido – humanos. É de espantar, portanto, que algumas das principais ameaças a esse deleite tão próprio à espécie venham precisamente do mundo letrado.

 

A ideia da leitura enquanto forma de ascese tem lá suas razões de ser, naturalmente. Imergir na leitura exige um tipo específico de compenetração, que nem sempre surge de modo espontâneo. Além disso, há deleites livrescos que demandam aprendizado prévio e alguma medida de paciência: é preciso certa cancha para desfrutar Homero e nem todos chegam prontos a Virgílio. Muito bem: isso significa que a leitura deve ser cultivada; que devemos fazer nela uma espécie de investimento. Mas o mesmo pode ser dito a respeito de muitas outras coisas; a amizade, por exemplo. Pouco sacerdotal que sou, e nada afeito ao martírio, cultivo por prazer algumas boas, embora poucas, amizades, e ninguém há de dizer que isso é mero entretenimento.

 

Menosprezar o prazer da leitura é acreditar na dicotomia entre os livros e a vida: é supor que ambos estejam separados em esferas platônicas incomunicáveis e que, no fim, uma das facções terá de vencer.

 

Há quem proclame a leitura ascética, desprovida de alegria, como uma espécie de barricada erguida contra o mundo. Também há quem se renda ao mundo, renuncie à ilusão livresca e diga, resignado: é melhor escutar o canto dos pássaros a falar com as tais grandes almas que encantavam Maquiavel. Já o leitor sem vergonha ignora esses achaques – pois sabe que os livros não são o oposto da vida, mas seu infinito prolongamento.

 

BOTELHO, José Francisco. A leitura desavergonhada.

VEJA nº 2534, de 14 jun. 2017, p. 99. (Fragmento adaptado).

 

De acordo com a tese defendida pelo autor, o título do texto remete ao fato de que:

  1. A leitura é um hábito que pode envergonhar, salvo se seu objetivo for a aquisição de conhecimento.
  2. A leitura pode ser uma fonte de prazer, desavergonhadamente sem outro compromisso ou obrigação.
  3. As pessoas precisam reconhecer que não há vergonha em não se desenvolver gosto pela leitura.
  4. As pessoas devem buscar prazer na leitura, principal forma de deleite da qual não se envergonham.
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Gabarito

B

Comentário do professor

"A leitura desavergonhada" aponta, segundo o autor, para a ideia de que ler pode ser sobretudo um ato de prazer livre de obrigação. O exemplo de Maquiavel — que vestia-se para ir à biblioteca e lia para deleite — mostra leitura feita desavergonhadamente, sem finalidade utilitária imediata.

O texto contrapõe a leitura ascética, vista como dever ou resistência ao mundo, à postura do leitor que se entrega ao livro como fonte de satisfação. Assim, a palavra do título destaca a recusa de qualquer vergonha em desfrutar da leitura sem compromisso.

Portanto, a tese do autor converge com a alternativa: a leitura pode ser uma fonte legítima de prazer, independente de outras obrigações, e funciona como um prolongamento da vida, não como seu oposto.

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