Questão FC384431
Leia o texto a seguir. Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato. Culti
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Verbena · 2025
Leia o texto a seguir.
Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato. Cultivariam um pedaço de terra. Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos frequentariam escolas, seriam diferentes deles. Sinha Vitória esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as mãos agarradas à boca do saco e à coronha da espingarda de pederneira.
Não sentia a espingarda, o saco, as pedras miúdas que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carniças que empestavam o caminho. As palavras de Sinha Vitória encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida.
Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era. Repetia docilmente as palavras de Sinha Vitória, as palavras que Sinha Vitória murmurava porque tinha confiança nele. E andavam para o Sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se, temerosos. Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Martins, 1970.
O texto acima é uma manifestação
- do desânimo das personagens.
- de esperança humana e ingênua.
- de ironia contra a realidade.
- do amor à terra.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O trecho manifesta sobretudo a esperança de Fabiano e Sinha Vitória: eles projetam uma "vida nova", imaginam mudar-se para a cidade e ver os filhos na escola. Essas imagens de futuro aparecem repetidas e vividas pelo narrador e pelos pensamentos dos personagens, o que revela um desejo real de transformação.
Ao mesmo tempo essa esperança é ingênua, pois baseia-se no desconhecimento — Fabiano acredita na "terra" porque não sabe onde ela é nem como é. O sonho não nasce de planos concretos, mas de promessas vagas e de temor apenas intuitivo.
A combinação entre entusiasmo e falta de informação caracteriza, portanto, uma esperança humana, sincera, porém ingênua.
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