Questão FC384646
No texto “Insônia infeliz e feliz”, descrevem-se diferentes sentimentos e percepções durante a insônia. Como se dá a mudança de perspectiva do eu lírico ao longo do texto?
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Verbena · 2024
Texto 5
Insônia infeliz e feliz
De repente os olhos bem abertos. E a escuridão toda escura. Deve ser noite alta. Acendo a luz da cabeceira e para o meu desespero são duas horas da noite. E a cabeça clara e lúcida. Ainda arranjarei alguém igual a quem eu possa telefonar às duas da noite e que não me maldiga. Quem? Quem sofre de insônia? E as horas não passam. Saio da cama, tomo café. E ainda por cima com um desses horríveis substitutos do açúcar porque Dr. José Carlos Cabral de Almeida, dietista, acha que preciso perder os quatro quilos que aumentei com a superalimentação depois do incêndio. E o que se passa na luz acesa da sala? Pensa-se uma escuridão clara. Não, não se pensa. Sente-se. Sente-se uma coisa que só tem um nome: solidão. Ler? Jamais. Escrever? Jamais. Passa-se um tempo, olha-se o relógio, quem sabe são cinco horas. Nem quatro chegaram. Quem estará acordado agora? E nem posso pedir que me telefonem no meio da noite pois posso estar dormindo e não perdoar. Tomar uma pílula para dormir? Mas e o vício que nos espreita? Ninguém me perdoaria o vício. Então fico sentada na sala, sentindo. Sentindo o quê? O nada. E o telefone à mão.
Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo.
As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
No texto “Insônia infeliz e feliz”, descrevem-se diferentes sentimentos e percepções durante a insônia. Como se dá a mudança de perspectiva do eu lírico ao longo do texto?
- O eu lírico começa sentindo-se desesperado e termina sentindo-se aliviado ao encontrar uma solução para a insônia.
- O eu lírico inicialmente sente-se confuso e desorientado, mas, depois, encontra clareza e propósito em suas reflexões noturnas.
- O eu lírico começa sentindo-se animado e termina sentindo-se exausto e desanimado.
- O eu lírico inicialmente sente-se solitário e frustrado, mas, depois, encontra uma sensação de paz e apreciação pela solidão.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
Alternativa correta: o eu lírico passa de um estado de angústia para outro de serenidade.
No início, predomina o desespero e a sensação de solidão: olhos abertos, relógio marcando duas da manhã, recusa à escrita, ao telefone, e a expressão “o nada” revela frustração e vazio.
Gradualmente ocorre uma reviravolta: a insônia é vista como dom. A solidão deixa de ser tortura e torna-se espaço de silêncio produtivo — “um nada a um tempo vazio e rico”.
O amanhecer reforça a mudança: imagens do mar, do sol e do terraço transmitem pertença e paz — “o mar é meu, o sol é meu”. A técnica do contraste (noite angustiante × manhã contemplativa) explicita a passagem do sofrimento para a apreciação da solitude.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em