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Questão FC386727

O menino de rua nos ameaça justamente pela fragilidade. Isso enlouquece as pessoas: têm medo do que atrai. Mais tarde, ele vai crescer... e aí?

Morfologia

Instituto Consulplan · 2025

Texto para responder a questão

 

O menino está fora da paisagem

 

O menino parado no sinal de trânsito vem em minha direção e pede esmola. Eu preferia que ele não viesse. A) A miséria nos lembra que a desgraça existe e a morte também. Como quero esquecer a morte, prefiro não olhar o menino. Mas não me contenho e fico observando os movimentos do menino na rua. Sua paisagem é a mesma que a nossa: a esquina, os meio-fios, os postes. Mas ele se move em outro mapa, outro diagrama. Seus pontos de referência são outros.

 

Como não tem nada, pode ver tudo. Vive num grande playground, onde pode brincar com tudo, desde que “de fora”. O menino de rua só pode brincar no espaço “entre” as coisas. Ele está fora do carro, fora da loja, fora do restaurante. A cidade é uma grande vitrine de impossibilidades. O menino mendigo vê tudo de baixo. Está na altura dos cachorros, dos sapatos, das pernas expostas dos aleijados. O ponto de vista do menino de rua é muito aguçado, pois ele percebe tudo que lhe possa ser útil ou perigoso. Ele não gosta de ideias abstratas. Seu ponto de vista é o contrário do intelectual: ele não vê o conjunto nem tira conclusões históricas – só detalhes interessam. O conceito de tempo para ele é diferente do nosso. Não há segunda-feira, colégio, happy hour. Os momentos não se somam, não armazenam memórias. Só coisas “importantes”: “Está na hora do português da lanchonete despejar o lixo...” ou “estão dormindo no meu caixote...”.

 

Se pudéssemos traçar uma linha reta de cada olhar do menino mendigo, D) teríamos bilhões de linhas para o lado, para baixo, para cima, para dentro, para fora, teríamos um grande painel de imagens. E todas ao rés-do-chão: uma latinha, um riozinho na sarjeta, um palitinho de sorvete, um passarinho na árvore, uma pipa, um urubu circulando no céu.

 

Acha natural sair do útero da mãe e logo estar junto aos canos de descarga pedindo dinheiro. Ele se acha normal; nós é que ficamos anormais com a sua presença.

 

Antigamente não o víamos, B) mas ele sempre nos viu. Depois que começou o medo da violência, ele ficou mais visível. Ninguém fica insensível a ele. Mesmo em quem não o olha, ele nota um fremir quase imperceptível à sua presença. Ele percebe que provoca inquietação (medo, culpa, desgosto, ódio). Todos preferiam que ele não estivesse ali. Por quê? Ele não sabe.

 

Evitamos olhá-lo; mas ele tenta atrair nossa atenção, pois também quer ser desejado. Mas os olhares que recebe são fugidios, nervosos, de esguelha.

 

O menino de rua nos ameaça justamente pela fragilidade. Isso enlouquece as pessoas: têm medo do que atrai. Mais tarde, ele vai crescer... e aí?

 

O menino de rua tem mais coragem que seus lamentadores; ele não se acha símbolo de nada, nem prenúncio, nem ameaça. Está em casa, ali, na rua. Olhamos o pobrezinho parado no sinal fazendo um tristíssimo malabarismo com três bolinhas e sentimos culpa, pena, indignação.

 

Todas nossas melhores recordações costumam ser da infância. Saudades da aurora da vida. O menino de rua estraga nossas memórias. C) Ele estraga a aurora de nossas vidas. Por isso, tentamos ignorá-lo ou o exterminamos.

 

(JABOR, A. O menino está fora da paisagem. O Estado de São Paulo, São Paulo, 14 abr. 2009. Caderno 2. Adaptado.)

 

As seguintes transcrições textuais apresentam formas flexionadas no mesmo modo, EXCETO:

  1. “Eu preferia que ele não viesse.” (1º§)
  2. “Antigamente não o víamos, [...]” (5º§)
  3. “O menino de rua estraga nossas memórias.” (9º§)
  4. “Se pudéssemos traçar uma linha reta de cada olhar do menino mendigo, [...]” (3º§)
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa marcada apresenta a locução verbal pudéssemos traçar, em que o núcleo pudéssemos está no modo subjuntivo (pretérito imperfeito do subjuntivo), introduzido pela conjunção condicional se.

No subjuntivo expressa-se hipótese, condição ou situação incerta — aqui, a ação de traçar depende de uma condição imaginária. Note-se que, em locuções verbais assim formadas, o auxiliar flexionado (aqui, pudéssemos) define o modo da construção, enquanto o verbo principal permanece no infinitivo (traçar).

Portanto, a forma verbal da alternativa D caracteriza-se justamente pelo modo subjuntivo, marcado pela incerteza/condição, razão pela qual é a resposta indicada.

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