Questão FC386741
Os dias lindos Acontece em abril nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma aut
Morfologia
Instituto Consulplan · 2025
Os dias lindos
Acontece em abril nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário. Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza. Sob esse mínimo de agasalho, a pele contente recebe a visita dos dias lindos.
A cor. Redescobrimos o azul-correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fábricas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.
O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesadões, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença de dias lindos.
Foi certamente num dia como este que Cecília Meireles escreveu: “A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados”. Porque a primeira consequência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los.
Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão.
A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores. Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta.
(Carlos Drummond de Andrade. Texto publicado no Jornal do Brasil, 1970. Fragmento.)
No trecho “Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão.” (5º§), é possível inferir que a presença do pronome possessivo em “nossa gratidão” denota:
- A hostilidade do leitor.
- O envolvimento do autor.
- A onisciência do narrador.
- Um procedimento jocoso.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O emprego de "nossa gratidão" revela, por meio do pronome possessivo, a presença do falante na enunciação: trata‑se da primeira pessoa do plural, que inclui tanto o autor quanto um grupo (leitores ou a coletividade).
Ao escolher "nossa", o enunciador não permanece neutro; ele assume uma atitude compartilhada e convida à adesão. Isso evidencia o envolvimento do autor com o objeto valorizado — os "dias lindos" — e transforma a afirmação em apelo participativo.
Ressalte‑se também a função persuasiva desse recurso: a inclusão em "nós" cria empatia e reforça a legitimidade do elogio, posicionando o autor como sujeito comprometido emocionalmente, não apenas observador.
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