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Questão FC386773

O cajueiro O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta d

Morfologia

Instituto Consulplan · 2025

O cajueiro

 

O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.

 

Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá- -manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.

 

No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.

 

A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.

 

Foi agora, em fins de setembro. Estava carregado de flores.

 

(BRAGA, Rubem. Melhores Contos. Seleção de Davi Arrigucci Jr. Global Editora – 11ª edição, 2001.)

 

No período “Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.” o conector “mas” pode ser substituído, sem causar alteração de sentido, por:

  1. Porque.
  2. Contudo.
  3. Contanto que.
  4. Apesar de que.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Contudo é adequado porque exerce a mesma função de conjunção adversativa que a palavra “mas”: introduz uma ideia de oposição entre duas orações — aqui, o susto inicial das crianças e a ação posterior de brincar.

Ao substituir, o sentido do período não se altera: mantém-se a relação de contraste entre o fato de terem se assustado e, apesar disso, terem brincado depois.

Observação sintática: como contudo costuma funcionar como elemento conjuntivo com valor adversativo, é correto mantê-lo com pontuação apropriada — por exemplo, “Diz que seus filhos pequenos se assustaram; contudo, depois foram brincar nos galhos tombados.” — preservando fluidez e formalidade do texto.

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