Questão FC386774
Texto para responder à questão Eu deveria cantar. Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igrej
Morfologia
Instituto Consulplan · 2025
Texto para responder à questão
Eu deveria cantar.
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem plateia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis, nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. Nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com frequência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se – um emprego.
(ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p. 11-12.)
Tendo em vista que o valor de um conectivo é fundamentado no contexto em que se encontra, podemos afirmar que a conjunção “mas” em “Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas.” Manteria o sentido que expressa, caso fosse substituída por:
- Embora.
- Contudo.
- Ademais.
- Ainda que.
- Porquanto.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Contudo exerce aqui a função de conector de valor adversativo, ou seja, marca um contraste entre duas ideias: a obrigação/expectativa ("Rolar de rir ou chorar, eu deveria") e a realidade do narrador ("tinha desaprendido essas coisas").
Substituir mas por contudo preserva esse mesmo sentido de oposição — indica que algo impede ou contraria o que se anunciara antes. Sintaticamente, ambos ligam orações coordenadas e mantêm a relação lógica de contradição ou restrição.
Vale observar apenas a questão estilística: contudo tende a ser mais formal que mas, mas isso não altera o conteúdo semântico da frase. A pontuação (vírgula antes do conector) continua adequada ao conectar as orações contrastantes.
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