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Questão FC386794

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

Semântica

Instituto Consulplan · 2025

Negócio de ocasião

 

Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!

 

– Está bem – concordou ele, acalmando o vizinho: – Vou mandar começar mais tarde.

 

Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:

   

– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!

 

– Mas é só por uns dias – argumentou ele: – o senhor vai ter paciência...

   

E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir das dez horas. Com isso, pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar, e desta vez furibundo, armado de revólver:

 

– Ou o senhor para com esse barulho ou faço um estrago louco.

 

Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:

 

– Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias... Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?

 

– Trinta e dois.

 

– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom... Que marca?

 

– Smith-Wesson.

 

– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola... Quanto o senhor pagou por ele?

 

– Cinco mil cruzeiros.

 

– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?

 

– Não vim aqui para vender revólver – explodiu o outro – mas para te avisar que esse barulho...

 

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

 

– O senhor está brincando...

 

Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou dez mil por ele. Sempre tive vontade... Vamos, aceite! Dez mil, pago na hora.

 

O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: dez mil era um bom preço. Já pensava mesmo em vendê-lo... Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:

 

– Toma, é seu – decidiu-se.

 

Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro, trouxe dez abobrinhas e estendeu-as ao vizinho. Depois, empurrou o revólver e chegou-lhe aos peitos:

 

– Bem, agora ponha-se daqui pra fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

 

(Fernando Sabino. A mulher do vizinho. 2ª ed. RJ, Ed do Autor, 1962 p. 186.)

 

Considerando que a sinonímia é a relação entre palavras que têm significados semelhantes ou idênticos, permitindo a substituição de uma pela outra em determinados contextos sem alterar o sentido da expressão, assinale a associação INCORRETA.

  1. “– Não precisa se exaltar, que diabo.” – irritar.
  2. “O homem começou a titubear.” – contentar.
  3. “Com isso, pensava haver contentado o vizinho.” – acalmado.
  4. “Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar: [...]” – cauteloso.
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Gabarito

B

Comentário do professor

“Titubear” significa vacilar, hesitar, mostrar dúvida ou indecisão diante de uma escolha ou ação. Trata-se de um movimento mental de incerteza, que pode manifestar-se por demora, titubeio verbal ou gestual.

“Contentar” tem sentido distinto: equivaler a satisfazer, a deixar alguém tranquilo ou satisfeito. É um estado de aprovação ou acomodação, não uma atitude de dúvida.

No enunciado “O homem começou a titubear.”, a ideia é de hesitação antes de decidir vender a arma. Substituir por “contentar” altera o sentido: não caberia dizer que ele “começou a contentar” para expressar vacilação. Portanto, as palavras não são sinônimas naquele contexto.

Conclusão: a associação proposta é incorreta porque há diferença semântica clara entre hesitar e ficar satisfeito.

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