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Questão FC386817

Texto para responder à questão Eu deveria cantar. A) Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a ig

Semântica

Instituto Consulplan · 2025

Texto para responder à questão

 

Eu deveria cantar. A)

Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.

 

Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. B) E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem plateia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. C) O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.

 

Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis, nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. Nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com frequência, D) não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.

 

Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.

 

Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. E) Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se – um emprego.

 

(ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p. 11-12.)

 

A linguagem metafórica é marcada por forte emoções e representações, a fim de estabelecer um canal direto de comunicação. Dessa forma, ela contribui para construir um sentido expressivo no texto. É possível inferir que há um exemplo de linguagem metafórica ou simbólica em:

  1. “Eu deveria cantar.”
  2. “Acendi um cigarro.”
  3. “Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu.”
  4. “Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com frequência, [...]”
  5. “Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia.”
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A expressão “penumbra gosmenta do meio-dia” funciona como uma metáfora: o narrador transfere seu estado interior para a descrição do espaço, criando uma imagem sensorial que vai além do literal.


Penumbra sugere falta de luz e clareza, enquanto gosmenta adiciona ideia de sufocamento, peso e viscosidade emocional; juntas, evocam um clima opressor e estagnado.


O uso de meio-dia intensifica o efeito por contraste: espera‑se claridade nesse horário, mas o texto impõe escuridão, revelando alienação e desconforto íntimo do personagem.


Assim, a expressão não descreve apenas o ambiente físico: ela simboliza o estado psicológico do eu‑narrador, comunicando sentimentos complexos de forma mais impactante que uma afirmação direta.

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