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Questão FC386822

Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu. Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdur

Semântica

Instituto Consulplan · 2025

Os livros e suas vozes

 

Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu. Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível. Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?

 

Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre, o encontro com o eco, essa música matinal dos sabiás, lagartixas pelos muros, enterros, borboletas, o carnaval, retratos de álbum, o uivo dos cães, o cheiro do doce de goiaba, todos os tipos populares, a pajem que me contava com a maior convicção histórias do Saci e da Mula-sem-cabeça (que ela conhecia pessoalmente); minha avó que me cantava rimances e me ensinava parlendas...

 

Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. Foi ainda nessa área que apareceram um dia os meus próprios livros, que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas.

 

Sempre gostei muito de livros e, além dos livros escolares, li os de histórias infantis, e os de adultos: mas estes não me pareciam tão interessantes, a não ser, talvez, “Os três mosqueteiros”, numa edição monumental, muito ilustrada, que fora de meu avô. Aquilo era uma história que não acabava nunca; e acho que esse era o seu principal encanto para mim. Descobri o dicionário, uma das invenções mais simples e mais formidáveis e também achei que era um livro maravilhoso, por muitas razões.

 

Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo.

 

(Cecília Meireles. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997. Fragmento.)

 

Conforme Domingos Paschoal Cegalla, em Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, “o sentido figurado consiste em usar expressões com um significado diverso do que elas normalmente têm, estabelecendo uma relação de comparação implícita entre dois elementos; além de enriquecer a comunicação, permitindo expressar ideias de forma mais criativa e sugestiva”. Partindo-se dessa estimativa, assinale o trecho textual no qual as palavras ou expressões adquirem situações particulares de uso, ou seja, quando o seu significado é ampliado ou alterado no contexto.

  1. “Sempre gostei muito de livros [...]” (5º§)
  2. “Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros [...]” (6º§)
  3. “Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, [...]” (3º§)
  4. “Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, [...]” (4º§)
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Gabarito

D

Comentário do professor

O trecho “Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos...” apresenta sentido figurado. Aqui as palavras não são tomadas literalmente: livros não se abrem nem "soltam" sonhos como objetos físicos.

Trata-se de uma metáfora e de personificação (atribuir ação humana a coisas), que amplia o significado para indicar que a leitura revelou mundos, imagens e emoções à narradora.

Segundo a definição de sentido figurado, há uma comparação implícita entre livros e entidades que comunicam ou libertam conteúdo. O efeito é sugestivo: os livros tornam-se fontes vivas de experiências, unindo realidade e imaginação.

Portanto, o trecho exemplifica o uso conotativo da linguagem, enriquecendo a expressão e deslocando o sentido denotativo para um sentido poético.

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