Questão FC386826
Texto para responder à questão Eu deveria cantar. Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igrej
Semântica
Instituto Consulplan · 2025
Texto para responder à questão
Eu deveria cantar.
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem plateia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar. D) Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico. A)
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis, nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. Nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. C) Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com frequência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. B) Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se – um emprego.
(ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p. 11-12.)
A fim de construir sentidos, considera-se que a estratégia pela qual as palavras se correlacionam é fundamental e decisiva. Assim sendo, assinale a associação INADEQUADA em relação à significação das palavras, tendo em vista o contexto em que se encontram empregadas.
- “[...] como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.” – incompreensível.
- “Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia.” – claridade.
- “[...] erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas.” – glorificado.
- “[...] fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar.” – quente.
- “[...] que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, [...]” – satisfação.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Explica-se por que a associação é inadequada.
Em sentido lexical, penumbra designa uma condição de meia‑luz ou sombra parcial, isto é, iluminação reduzida e difusa, não luminosidade plena.
No contexto da frase — “penumbra gosmenta do meio‑dia” — o autor cria um efeito de contraste e desconforto: mesmo ao meio‑dia, horário associado à claridade, a cena aparece sombria, pegajosa e opressiva. O adjetivo “gosmenta” reforça a sensação de luz suja, grudenta, não de brilho.
Portanto, traduzir penumbra por claridade é inadequado: trata‑se de sentidos opostos, sendo claridade antônima da palavra usada no texto.
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