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Questão FC386839

O cajueiro O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: b) belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma cart

Semântica

Instituto Consulplan · 2025

O cajueiro

 

O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: b) belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.

 

Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá- -manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge c) (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. d) Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde. a)

 

No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.

 

A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.

 

Foi agora, em fins de setembro. Estava carregado de flores.

 

(BRAGA, Rubem. Melhores Contos. Seleção de Davi Arrigucci Jr. Global Editora – 11ª edição, 2001.)

 

De acordo com o texto, as expressões destacadas mantêm o mesmo valor semântico se substituídas pelas palavras a seguir indicadas, EXCETO em:

  1. “[...] sentir o leve balanceio na brisa da tarde.” – aragem.
  2. “Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: [...]” – lembranças.
  3. “Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge [...]” – moita.
  4. “[...] e a cobiça de toda meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude.” – ambição.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Balanceio refere‑se ao movimento oscilante — o efeito percebido quando algo balança. Aragem nomeia uma brisa leve — a causa (vento) que pode provocar esse movimento.

No trecho, o locutor diz que sente o leve balanceio “na brisa da tarde”: enfatiza o balanço provocado pela brisa, não a própria brisa. Substituir por aragem altera a relação entre causa e efeito e torna a expressão redundante ou estranhamente construída (dupla indicação de vento), além de mudar o sentido focal da percepção.

Por isso, a troca por aragem não preserva o valor semântico original.

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