Questão FC386866
Depois de caminhar por alguns metros, Edgar Wilson percebe ao longe a carcaça de um animal. Segue pela estrada de terra batida, que fica deserta a maior parte do tempo e é usada co
Sintaxe
Instituto Consulplan · 2025
Depois de caminhar por alguns metros, Edgar Wilson percebe ao longe a carcaça de um animal. Segue pela estrada de terra batida, que fica deserta a maior parte do tempo e é usada como atalho pelos motoristas que conhecem bem as imediações. Edgar fora atraído para esse trecho por causa de uma revoada de abutres. Assim como a podridão os atrai, os que se alimentam dela atraem Edgar. Tanto as aves carniceiras quanto ele se valem dos próprios sentidos para encontrar os mortos, D) e ambas as espécies sobrevivem desses restos não reclamados.
Todo nascimento é também um pouco de morte. B) Edgar já viu algumas criaturas nascerem mortas, C) outras, morrerem horas depois. Sua consciência sobre o fim de todas as coisas tornou-se aguçada desde que abatia o gado e principalmente agora, ao recolher todas as espécies em qualquer parte. Assim como não teme o pôr do sol, Edgar Wilson entende que não deve temer a morte. Ambos ocorrem involuntariamente num fluxo contínuo. De certa forma, o inevitável lhe agrada. Sentir-se passível de morrer fortalece suas decisões. Não importa o que faça, seja o bem, seja o mal, ele deixará de existir.
Distrai-se dos voos dos abutres e caminha mais alguns metros em outra direção, para a caveira de uma vaca atirada no meio da estrada. Nota que não foi atropelada. Os ossos estão intactos, nenhum sinal de fratura. O couro foi levemente oxidado, consumido pela exposição climática. Não há sinal de vermes necrófagos ou pequenos insetos a devorá-la. Edgar Wilson inclina ainda mais o corpo ao perceber uma colmeia presa às costelas da vaca. Apanha um galho de árvore caído no chão e cutuca a colmeia, mesmo sabendo que é perigoso. Nada acontece. Cutuca-a com mais força e a colmeia se parte. Não há abelhas. Percebe algo pastoso e brilhante. A) Leva a mão até a colmeia e arranca um favo de mel. Cheira-o. Toca a ponta da língua. Diferente do que imaginou, não está podre. Come um pouco do mel. Agradam-lhe as pequenas explosões do favo rompendo em sua boca, algumas lascas muito finas que se prendem entre os molares superiores. Lambe o excesso de mel nos dedos e os limpa no macacão.
(MAIA, Ana Paula. Enterre seus mortos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 71-72.)
Dentre os segmentos a seguir relacionados, pode ser identificado um exemplo de sujeito desinencial em:
- “Percebe algo pastoso e brilhante.” (3º§)
- “Todo nascimento é também um pouco de morte.” (2º§)
- “Edgar já viu algumas criaturas nascerem mortas, [...]” (2º§)
- “Tanto as aves carniceiras quanto ele se valem dos próprios sentidos para encontrar os mortos, [...]” (1º§)
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
A
Comentário do professor
“Percebe algo pastoso e brilhante.” — trata‑se de um exemplo clássico de sujeito desinencial (também chamado oculto ou implícito).
O sujeito desinencial não aparece expresso na oração, porém pode ser identificado pela desinência verbal — isto é, pela terminação do verbo que indica pessoa e número.
Na oração em análise, o verbo percebe está na 3ª pessoa do singular; portanto, o sujeito é oculto e concorda com essa forma. No texto, o núcleo agente já foi apresentado: é o personagem Edgar Wilson, mencionado nas orações anteriores, logo o sujeito pode ser recuperado por contexto.
Assim, a omissão do sujeito é intencional e gramaticalmente regular: a concordância verbal revela a pessoa a que se refere, caracterizando o sujeito desinencial.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em