FC ConcursosFC Concursos

Questão FC386890

O cajueiro O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta d

Sintaxe

Instituto Consulplan · 2025

O cajueiro

 

O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.

 

Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá- -manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.

 

No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.

 

A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.

 

Foi agora, em fins de setembro. Estava carregado de flores.

 

(BRAGA, Rubem. Melhores Contos. Seleção de Davi Arrigucci Jr. Global Editora – 11ª edição, 2001.)

 

Tendo como base as estruturas e os sentidos do texto, assinale a afirmativa INCORRETA.

  1. O sujeito da oração “Lembro-me da tamareira, [...]” é indeterminado.
  2. No trecho “Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão [...]” a expressão “mas” tem valor adversativo.
  3. Em “[...] belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa.” o termo destacado indica circunstância de “lugar”.
  4. Em “[...] estava como sempre carregado de frutos amarelos, [...]” a expressão destacada significa “habitualmente”.
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

A

Comentário do professor

Na oração “Lembro-me da tamareira”, o verbo lembro está na 1.ª pessoa do singular; portanto, o sujeito é o pronome eu subentendido — isto é, um sujeito oculto (ou elíptico). O me é um pronome oblíquo átono ligado ao verbo (verbo pronominal: lembrar‑se), funcionando como complemento, não como sujeito.

O sujeito indeterminado ocorre quando não se quer ou não se pode identificar o agente (por exemplo: Dizem que... ou usando se indeterminador: Fala‑se muito). Aqui, porém, o verbo concorda com a 1.ª pessoa, mostrando claramente o agente implícito; logo, a afirmativa de que o sujeito é indeterminado é incorreta.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo