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Questão FC386949

Considere o texto a seguir para responder a questão As caridades odiosas Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pen

Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)

Instituto Consulplan · 2025

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

As caridades odiosas

 

Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchava na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.

 

− Um doce, moça, compre um doce para mim.

 

Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.

 

Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.

 

De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você...

 

Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.

 

− Que outro doce você quer? Perguntei ao menino.

 

Este, que mexendo as mãos e a boca ainda espera com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com uma delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade

.

− Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los... Mesmo os doces estavam tão acima do menino. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:

 

− Afinal uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas, mas ninguém quis dar.

 

Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de... E para isso foi necessário que outros não lhe tivessem dado doce.

 

E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora, sozinha, meus pensamentos voltavam lentamente a ser os anteriores, só que inúteis.

 

(LISPECTOR, Clarice. As caridades odiosas. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1984. Adaptado.)

 

Assinale a alternativa cuja expressão sublinhada NÃO se refere à informação associada logo a seguir.

  1. “Um pouco aturdida eu o olhava, [...]”  – menino.
  2. “[...] mostrando os dentes: não precisa de outro não.” – doce.
  3. “E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu.”  – pensamento.
  4. “Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchava na minha saia.” – mão do menino.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

“ele” retoma o menino, não um pensamento. No trecho, a sequência narrativa descreve ações físicas do garoto — recebe os doces, ergue-os e afasta‑se — e em seguida aparece a forma verbal “fugiu”, que exige um agente humano capaz de movimentar‑se no espaço.


A escolha pronominal obedece à proximidade textual e à concordância lógica: o referente imediato e coerente é o menino que acabara de ser servido. Já a noção de pensamento não se coaduna semanticamente com verbos como “fugiu” ou com ações corporais (não pode “olhar para mim” nem “fugir” no sentido físico).


Portanto, a associação proposta — “ele” → pensamento — é incorreta, razão pela qual a alternativa indicada é a certa.

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