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Questão FC386963

Cabem, pelo menos, duas perguntas em um país onde a figura do cidadão é tão esquecida. Quantos habitantes, no Brasil, são cidadãos? Quantos nem sequer sabem que não o são?

Vocábulo Que

Instituto Consulplan · 2025

Texto para responder à questão

 

Há cidadãos neste país?

 

Cabem, pelo menos, duas perguntas em um país onde a figura do cidadão é tão esquecida. Quantos habitantes, no Brasil, são cidadãos? Quantos nem sequer sabem que não o são?

 

O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos, apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Viver, tornar-se de um ser no mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de cada qual um portador de prerrogativas sociais. Direito a um teto, à comida, à educação, à saúde, à proteção contra o frio, a chuva, as intempéries; direito ao trabalho, à justiça, à liberdade e a uma existência digna.

 

O discurso das liberdades humanas e dos direitos seus garantidores é, certamente, ainda mais vasto. Tantas vezes proclamado e repetido, tantas vezes menosprezado. É isso, justamente, o que faz a diferença entre a retórica e o fato. O respeito ao indivíduo é a consagração da cidadania, pela qual uma lista de princípios gerais e abstratos se impõem como um corpo de direitos concretos individualizados. A cidadania é uma lei da sociedade que, sem distinção, atinge a todos e investe cada qual com a força de se ver respeitado contra a força, em qualquer circunstância.

 

A cidadania, sem dúvida, se aprende. É assim que ela se torna um estado de espírito, enraizado na cultura. É, talvez, nesse sentido, que se costuma dizer que a liberdade não é uma dádiva, mas uma conquista, uma conquista a se manter. Ameaçada por um cotidiano implacável, não basta à cidadania ser um estado de espírito ou uma declaração de intenções. Ela tem o seu corpo e os seus limites como uma situação social, jurídica e política. Para ser mantida pelas gerações sucessivas, para ter eficácia e ser fonte de direitos, ela deve se inscrever na própria letra das leis, mediante dispositivos institucionais que assegurem a fruição das prerrogativas pactuadas e, sempre que haja recusa, o direito de reclamar e ser ouvido.

 

A cidadania pode começar por definições abstratas, cabíveis em qualquer tempo e lugar, mas para ser válida deve poder ser reclamada. A metamorfose dessa liberdade teórica em direito positivo depende de condições concretas, como a natureza do Estado e do regime, o tipo de sociedade estabelecida e o grau de pugnacidade que vem da consciência possível dentro da sociedade civil em movimento. É por isso que, desse ponto de vista, a situação dos indivíduos não é imutável, está sujeita a retrocessos e avanços. Os homens, pela sua própria essência, buscam a liberdade. Não a procuram com a mesma determinação porque o seu grau de entendimento do mundo não é o mesmo. As sociedades, pela sua própria história, são mais ou menos abertas às conquistas do homem.

 

(SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 7. ed. São Paulo: Edusp, 2007. p. 19. Adaptado.)

 

Analise a frase “[...] ela deve se inscrever na própria letra das leis, mediante dispositivos institucionais que assegurem a fruição das prerrogativas pactuadas [...]” (4º§) e assinale a afirmativa correta quanto ao vocábulo “que”.

  1. É um pronome relativo e introduz uma oração subordinada adjetiva restritiva.
  2. É uma conjunção integrante e faz parte de uma oração subordinada substantiva subjetiva.
  3. Exerce a função de pronome relativo e introduz uma oração subordinada adjetiva explicativa.
  4. Tem função de conjunção integrante e introduz uma oração subordinada substantiva objetiva direta.
  5. Exerce a função de conjunção integrante e faz parte de uma oração subordinada substantiva objetiva indireta.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Na frase, o vocábulo que atua como pronome relativo: retoma e se refere ao substantivo anterior “dispositivos institucionais”, evitando repetição e ligando as orações.

Ao introduzir "que assegurem a fruição das prerrogativas pactuadas", esse que inicia uma oração subordinada adjetiva restritiva.

Essa oração tem função restritiva porque delimita quais dispositivos são exigidos — só valem aqueles que efetivamente asseguram a fruição dos direitos.

Observação prática: a restrição fica clara sintaticamente pelo fato de a oração não ser isolada por vírgulas, característica típica das orações explicativas.

Portanto, "que" é pronome relativo e introduz a oração adjetiva restritiva que especifica "dispositivos institucionais".

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