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Questão FC386970

Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Com licença poética

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

(PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1995, p.11.)

 

No verso “– dor não é amargura.”, a palavra “dor” adquire um sentido:

  1. Negativo, associado à derrota e à resignação.
  2. Estritamente físico, associado ao sofrimento corporal.
  3. Denotativo, destacando o significado literal do vocábulo.
  4. Sarcástico, expressando ironia sobre a condição humana.
  5. Simbólico, relacionado à capacidade de criação e resiliência.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A linha “– dor não é amargura.” desloca a palavra dor do sentido literal para um plano metafórico: trata-se de um elemento da experiência que não se reduz ao sofrimento resignado.


No poema, imagens como “inauguro linhagens”, “vai carregar bandeira” e “mulher é desdobrável” associam essa dor à força geradora e à capacidade de assumir destinos difíceis. Assim, a dor funciona como impulso criativo e como prova de resistência.


Por isso, o termo é simbólico — não indica um mal corporal, mas um processo vital ligado à criação (linhagens, filhos, projetos) e à resiliência (capacidade de suportar, adaptar-se e transformar). Essa leitura explica a afirmação de que a dor “não é amargura”: ela não anula a alegria nem impede a ação construtiva.

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