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Questão FC386971

Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Com licença poética

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

(PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1995, p.11.)

 

A construção “Ora sim, ora não, creio em parto sem dor.” reflete:

  1. Um erro gramatical, causado pela repetição inadequada do termo “ora”.
  2. Um uso típico da norma culta, que privilegia estruturas fixas e previsíveis.
  3. Uma variação histórica do português, que preserva marcas do português arcaico.
  4. O uso de uma linguagem exclusivamente poética, desvinculada da oralidade cotidiana.
  5. O uso de uma expressão marcada pela variação estilística, alternando afirmação e dúvida.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

A expressão “ora sim, ora não” funciona como marca de variação estilística: é uma locução adverbial que indica alternância entre posições afirmativas e negativas. Aqui, a construção transforma uma opinião em movimento, mostrando que a crença da eu-lírico oscila.

O recurso produz dupla função: sinaliza, de um lado, a incerteza (duvidar) e, de outro, a capacidade de afirmação parcial. No contexto poético, essa alternância intensifica a ambivalência emocional e rítmica do verso, revelando simultaneamente convicção e hesitação.

Portanto, a linha reflete um uso estilístico consciente, com valor expressivo — não um erro — que explora o contraste entre afirmar e duvidar para caracterizar o eu-poético.

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