Questão FC386973
Texto para responder à questão Eu deveria cantar. Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igrej
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
Texto para responder à questão
Eu deveria cantar.
Rolar de rir ou chorar, eu deveria, mas tinha desaprendido essas coisas. Talvez então pudesse acender uma vela, correr até a igreja da Consolação, rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma Glória ao Pai, tudo que eu lembrava, depois enfiar algum trocado, se tivesse, e nos últimos meses nunca, na caixa de metal “Para as Almas do Purgatório”. Agradecer, pedir luz, como nos tempos em que tinha fé.
Bons tempos aqueles, pensei. Acendi um cigarro. E não tomei nenhuma dessas atitudes, dramáticas como se em algum canto houvesse sempre uma câmera cinematográfica à minha espreita. Ou Deus. Sem juiz nem plateia, sem close nem zoom, fiquei ali parado no começo da tarde escaldante de fevereiro, olhando o telefone que acabara de desligar. Nem sequer fiz o sinal da cruz ou levantei os olhos para o céu. O mínimo, suponho, que um sujeito tem a obrigação de fazer nesses casos, mesmo sem nenhuma fé, como se reagisse a uma espécie de reflexo condicionado místico.
Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis, nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade infernal como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. Nada muito sensacional, tipo recuperar de súbito a visão ou erguer-se da cadeira de rodas com o semblante beatificado e a leveza de quem pisa sobre as águas. Embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com frequência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.
Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se – um emprego.
(ABREU, Caio Fernando. Onde andará Dulce Veiga? São Paulo: Planeta De Agostini, 2003, p. 11-12.)
O texto em análise pertence ao gênero narrativo e apresenta um potencial de eventos interligados em uma sequência temporal, baseados em fatos reais. Contribuem, para isso, os seguintes elementos linguísticos relacionados, EXCETO:
- O tempo passado como predominante.
- O uso de verbos de ação que dá progressão ao conto.
- O foco narrativo atribuído pelo narrador em primeira pessoa.
- O narrador protagonista que conduz a sequência de acontecimentos do enredo.
- O tempo psicológico, marcado por flashbacks, como predominante na narrativa.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Errado
Comentário do professor
A opção é correta porque o trecho não privilegia um tempo psicológico dominado por flashbacks. Embora haja lembranças e reflexões do narrador, a ação se ancora num momento presente: o personagem está parado, olha o telefone, acende um cigarro e reconhece o “milagre” — o emprego — como descoberta imediata.
O texto usa recordações para enriquecer a interioridade, mas essas memórias não rompem a sequência cronológica nem formam episódios retroativos estruturantes. Não há saltos temporais extensos que reorganizem a narrativa; predomina, portanto, a focalização no agora do narrador, com incursões breves à memória.
Em suma, não se trata de uma narrativa moldada por flashbacks, mas de um relato em que o momento presente e sua interpretação subjetiva mantêm a primazia.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em