Questão FC386989
– Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
Texto para responder à questão. Leia-o atentamente.
O homem que sabia javanês
Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. E)
Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas1, vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:
– Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo! A)
– Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? C) Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado!
– Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
– Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. B) Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
– Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
– Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
– Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
– Bebo. Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
– Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte:
“Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. D) Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. 1. um romance francês do século XVIII.
(BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês e outros contos. Curitiba: Polo Editorial do Paraná, 1997. Fragmento.)
Lima Barreto, em sua narrativa, propõe-nos uma reflexão cujo teor central é demonstrar que o uso do poder e do dinheiro para obtenção de cargos e favorecimento em instituições públicas era uma realidade da sociedade brasileira. Tal concatenação está melhor representada em:
- “– Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!” (4º§)
- “Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida.” (7º§)
- “Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas?” (5º§)
- “Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa.” (13º§)
- “Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.” (1º§)
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Errado
Comentário do professor
A frase inicial — “partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver” — já revela o núcleo da crítica: o narrador admite ter violado princípios morais por necessidade.
Esse trecho aponta para o recurso a expedientes e renúncias éticas como meio de sobrevivência, o que, num contexto institucional, corresponde ao uso de influência, favores e dinheiro para assegurar posição ou benefício.
Ao centrar a voz do narrador nessa confissão, Lima Barreto expõe a naturalização do clientelismo e da corrupção moral na vida social, mostrando que conciliar carreira e respeito depende frequentemente de artifícios.
Assim, a frase sintetiza a ideia de que a busca por cargos e vantagens passa pela transgressão das normas pessoais e públicas — tema central da narrativa.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em