Questão FC386995
– Que diabo é isso? Estamos em piquenique?
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
A pescaria
O Jorge era, apesar de boêmio, um bom chefe de família. A sua mulher, que lhe sabia cavalheiro e bom marido, não se importava absolutamente com as suas extravagâncias. Eles viviam na maior paz e harmonia. Chegasse ele às dez, às onze ou às quatro horas da madrugada, a recepção era a mais cordial possível.
Um dia pela semana santa, isto é, na quinta-feira da Paixão, Jorge chegou em casa e disse à mulher:
– Eugênia, amanhã vou pescar e você me acorde cedo.
Dona Eugênia recebeu a recomendação com todo o carinho e, no dia seguinte, logo pela manhã, pela madrugada, despertou o marido.
Em chegando ao primeiro botequim, porém, abancou e pôs-se a beber. Comer e beber, a questão é começar; e ele tinha começado e continuou.
Quando chegou aí pelo meio-dia, lembrou-se da pescaria que tinha prometido à mulher.
– Como havia de ser? pensou ele de si para si.
A canoa e os companheiros já deviam ter partido, e precisava levar os peixes.
Entrou em uma confeitaria e comprou camarões, postas de peixe, siris, ostras, etc.
Tomou o bonde e foi para casa. Entregou os embrulhos à mulher e foi dormir, tão cansado estava da pescaria. Às cinco horas, Dona Eugênia veio-lhe despertar.
– Jorge! Jorge! Vem jantar.
Ele ergueu-se e foi para a sala de refeições. Quando lá chegou e viu aqueles primores de confeitaria, perguntou à mulher:
– Que diabo é isso? Estamos em piquenique?
A mulher acudiu:
– Isto é a pescaria que tu fizeste!
(Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/14915/a-pescaria. Acesso em: janeiro de 2024.)
A crônica é um gênero textual que combina reflexão, observação e prosa, com o objetivo de apresentar uma ideia ou percepção da realidade. É um texto curto, geralmente publicado em jornais, revistas ou blogs. Com base na interpretação da crônica “A pescaria”, é correto afirmar que:
- Jorge conseguiu ludibriar sua esposa ao levar os peixes comprados e fingir que os pescou.
- A crônica narra o cotidiano de Jorge que, apesar de ser boêmio, é um bom marido e um bom chefe de família.
- Jorge não conseguiu ir pescar com os amigos, pois bebeu demais e se esqueceu do compromisso. Por isso resolveu comprar os peixes para a esposa.
- A crônica apresenta como efeito de humor o fato de que Jorge teve um delírio causado pelo consumo de bebidas alcoólicas e acreditou estar em um piquenique quando acordou.
- O efeito de humor empregado pelo autor se desencadeia a partir do momento em que Jorge lembra ter saído de casa para pescar e, na tentativa de comprar os peixes para fingir que os pescou, entra em uma confeitaria acreditando se tratar de uma peixaria.
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Comentário do professor
O enunciado indica que o efeito de humor nasce da discrepância entre a intenção de Jorge e a situação concreta: ele lembra que saiu para pescar e decide fingir a pescaria.
Ao procurar os peixes, em vez de uma peixaria, ele entra numa confeitaria — detalhe que cria incongruência: um local associado a doces oferece, no relato, camarões, postas e siris.
Essa ironia de situação é o recurso cômico central: o leitor percebe o contraste entre a imagem esperada (pesca legítima) e a solução absurda (comprar frutos do mar numa confeitaria), reforçada pela caracterização boêmia de Jorge.
O riso vem, portanto, da surpresa e do contraste entre intenção e realidade.
É essa monta inesperada que sustenta a alternativa correta.
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