Questão FC387000
A mão no metrô Assim que o metrô chegou, ela preparou-se para incomodação. Porque o vagão estava cheio, completamente lotado, e ela já sabia o que a esperava tão logo embarcasse: s
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
A mão no metrô
Assim que o metrô chegou, ela preparou-se para incomodação. Porque o vagão estava cheio, completamente lotado, e ela já sabia o que a esperava tão logo embarcasse: sem demora, algum homem, ou vários homens, encostariam nela, tentando tirar proveito da situação. Mulher ainda jovem, bonita, estava sujeita a essas situações, que a deixavam indignada. Mas, como outras usuárias na mesma situação, resignava-se.(c) Era, achava, o preço que tinha de pagar por ser pobre, por não ter carro, como outras colegas de escritório.
Pensou em não entrar, em esperar outro metrô mais vazio.(b) Mas já era tarde, e ela precisava ir para casa. Num impulso, entrou, e imediatamente viu-se na clássica posição de sardinha em lata, imprensada entre corpos, vários deles masculinos. Só faltava a mão.
Que não tardou a se fazer presente. Aos poucos, suavemente, ela sentiu a pressão de dedos sobre seu corpo.
Mas, surpreendentemente, aquilo não a enojou, não a alarmou. Porque era diferente, o contato daquela mão.(a) Não se tratava de uma “mão-boba”; não havia malícia naqueles dedos, não havia safadeza. Para começar, eles estavam em lugar neutro, não nas nádegas, não nas coxas, mas nas costas, as costas que ela tinha doloridas depois de um dia de árduo trabalho.
E a mão não estava em busca de prazer, de sacanagem; estava simplesmente pousada, quieta. Como se dissesse estou em busca de contato humano, é só isso que eu quero.
Ela poderia olhar ao redor, tentar descobrir quem, daqueles homens e mulheres à sua volta, estava a tocá-la. Mas não queria fazer isso. A verdade é que a gentil mão não a incomodava. Pelo contrário, fazia com que lembrasse uma passagem na infância, o dia em que o pai a levara à escola pela primeira vez. Tinham também ido de metrô; ela estava assustada, chorosa. O pai então colocara-lhe a mão nas costas, como a ampará-la, dizendo qualquer coisa do tipo “não chore, a escola é boa, você vai gostar”. E ela se acalmara, não tanto por causa das palavras, mas pelo contato da mão paterna. E era a mesma sensação que tinha agora: a sensação de amparo, de conforto.
Estava chegando, precisava descer. Como se houvesse percebido, a mão, discretamente, retirou-se de seu dorso.(d) A porta se abriu e ela saiu do vagão. Ainda teve a tentação de olhar para trás, mas resistiu. Não queria associar nenhum dos rostos que ali estavam com a mão que a tocara. Queria, isto sim, guardar a lembrança dessa mão como uma entidade misteriosa que, de algum modo, a fizera viver uma estranha e perturbadora aventura.
(Moacyr Scliar. Folha de São Paulo. São Paulo. Em: 12/09/2005.)
Moacyr Scliar, em sua narrativa, nos propõe uma reflexão cuja temática central é a vulnerabilidade em que as mulheres se encontram, hoje em dia, em metrôs completamente lotados de homens, que chega a ser uma condição conflitante e paradoxal.
Tal condição se encontra melhor representada em:
- “Porque era diferente, o contato daquela mão.”
- “Pensou em não entrar, em esperar outro metrô mais vazio.”
- “Mas, como outras usuárias na mesma situação, resignava-se.”
- “Como se houvesse percebido, a mão, discretamente, retirou-se de seu dorso.”
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Certo
Comentário do professor
“Mas, como outras usuárias na mesma situação, resignava-se.”
Essa frase sintetiza o tema central: a resignação coletiva diante da vulnerabilidade feminina em vagões lotados. A construção destaca que o comportamento não é isolado, mas compartilhado — uma reação social aprendida.
O verbo resignava-se indica aceitação passiva, não consentimento ativo; mostra como o assédio e o aperto são naturalizados pelo cotidiano e pela falta de alternativas.
A menção a “outras usuárias” reforça a dimensão estrutural do problema: não é um episódio eventual, mas um padrão que impõe custos — econômicos e psicológicos — às mulheres.
Portanto, essa alternativa concentra a ideia de conflito paradoxal (proxmidade física vs. insegurança) e a crítica social implícita na narrativa.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em