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Questão FC387008

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Negócio de ocasião

 

Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!

 

– Está bem – concordou ele, acalmando o vizinho: – Vou mandar começar mais tarde.

 

Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:

   

– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!

 

– Mas é só por uns dias – argumentou ele: – o senhor vai ter paciência...

   

E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir das dez horas. Com isso, pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar, e desta vez furibundo, armado de revólver:

 

– Ou o senhor para com esse barulho ou faço um estrago louco.

 

Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:

 

– Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias... Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?

 

– Trinta e dois.

 

– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom... Que marca?

 

– Smith-Wesson.

 

– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola... Quanto o senhor pagou por ele?

 

– Cinco mil cruzeiros.

 

– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?

 

– Não vim aqui para vender revólver – explodiu o outro – mas para te avisar que esse barulho...

 

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

 

– O senhor está brincando...

 

Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou dez mil por ele. Sempre tive vontade... Vamos, aceite! Dez mil, pago na hora.

 

O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: dez mil era um bom preço. Já pensava mesmo em vendê-lo... Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:

 

– Toma, é seu – decidiu-se.

 

Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro, trouxe dez abobrinhas e estendeu-as ao vizinho. Depois, empurrou o revólver e chegou-lhe aos peitos:

 

– Bem, agora ponha-se daqui pra fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

 

(Fernando Sabino. A mulher do vizinho. 2ª ed. RJ, Ed do Autor, 1962 p. 186.)

 

Fernando Sabino, na crônica apresentada, busca inspiração para o seu texto em um acontecimento recente, uma situação banal do cotidiano, e convida o leitor a olhar para o mundo como ele. Depreende-se que a ideia de interesse do cronista está relacionada a uma:

  1. Assimetria regional.
  2. Visão individualista.
  3. Observação irônica.
  4. Análise reflexiva da instituição “sociedade”.
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Certo

Comentário do professor

A opção Observação irônica é correta porque a crônica parte de um episódio cotidiano e o transforma em comentário mordaz sobre as relações humanas.

Fernando Sabino descreve a cena com tom leve e humorístico: o conflito do ruído evolui para uma negociação absurda em que o protagonista elogia e compra a arma do vizinho para, em seguida, inverter a ameaça.

A ironia aparece quando o sentido literal das falas contrasta com a intenção real — elogios, perguntas sobre marca e preço servem para desarmar o outro e assumir poder.

O efeito é cômico e crítico: o narrador não faz juízo moral explícito, mas revela, pela inversão de papéis e pela surpresa final, uma visão irônica da convivência.

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