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Questão FC387009

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Negócio de ocasião

 

Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!

 

– Está bem – concordou ele, acalmando o vizinho: – Vou mandar começar mais tarde.

 

Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:

   

– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!

 

– Mas é só por uns dias – argumentou ele: – o senhor vai ter paciência...

   

E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir das dez horas. Com isso, pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar, e desta vez furibundo, armado de revólver:

 

– Ou o senhor para com esse barulho ou faço um estrago louco.

 

Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:

 

– Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias... Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?

 

– Trinta e dois.

 

– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom... Que marca?

 

– Smith-Wesson.

 

– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola... Quanto o senhor pagou por ele?

 

– Cinco mil cruzeiros.

 

– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?

 

– Não vim aqui para vender revólver – explodiu o outro – mas para te avisar que esse barulho...

 

– Não haverá mais barulho, esteja tranquilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

 

– O senhor está brincando...

 

Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou dez mil por ele. Sempre tive vontade... Vamos, aceite! Dez mil, pago na hora.

 

O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: dez mil era um bom preço. Já pensava mesmo em vendê-lo... Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:

 

– Toma, é seu – decidiu-se.

 

Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro, trouxe dez abobrinhas e estendeu-as ao vizinho. Depois, empurrou o revólver e chegou-lhe aos peitos:

 

– Bem, agora ponha-se daqui pra fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

 

(Fernando Sabino. A mulher do vizinho. 2ª ed. RJ, Ed do Autor, 1962 p. 186.)

 

No trecho “Não estou não: pela vida de minha mãezinha.”, emprega-se uma linguagem simbólica para realçar o sentido pretendido. É possível afirmar que tal fato ocorre por meio de:

  1. Intenção comparativa.
  2. Busca por clareza e veracidade.
  3. Recurso expressivo que cria um contraste textual.
  4. Analogia, permitindo uma compreensão mais profunda.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Na fala “Não estou não: pela vida de minha mãezinha.”, o enunciado funciona como um juramento coloquial, isto é, um recurso verbal usado para reforçar a sinceridade do que se afirma.

Trata‑se de uma expressão enfática que busca transmitir veracidade e convencer o interlocutor da seriedade da proposta: o falante quer que sua intenção seja tomada como verdadeira e imediata.

Do ponto de vista pragmático, é um ato de fala performativo — não apenas informa, mas tenta garantir confiança e resolver o conflito. No contexto da negociação pela arma, a expressão legitima a oferta e desarma a resistência do vizinho.

Portanto, o efeito principal é a busca por clareza e veracidade, conferindo credibilidade ao discurso e reforçando a intenção comunicativa do locutor.

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