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Questão FC387019

Depois de caminhar por alguns metros, Edgar Wilson percebe ao longe a carcaça de um animal. Segue pela estrada de terra batida, que fica deserta a maior parte do tempo e é usada co

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Depois de caminhar por alguns metros, Edgar Wilson percebe ao longe a carcaça de um animal. Segue pela estrada de terra batida, que fica deserta a maior parte do tempo e é usada como atalho pelos motoristas que conhecem bem as imediações. Edgar fora atraído para esse trecho por causa de uma revoada de abutres. Assim como a podridão os atrai, os que se alimentam dela atraem Edgar. Tanto as aves carniceiras quanto ele se valem dos próprios sentidos para encontrar os mortos, e ambas as espécies sobrevivem desses restos não reclamados.

 

Todo nascimento é também um pouco de morte. Edgar já viu algumas criaturas nascerem mortas, outras, morrerem horas depois. Sua consciência sobre o fim de todas as coisas tornou-se aguçada desde que abatia o gado e principalmente agora, ao recolher todas as espécies em qualquer parte. Assim como não teme o pôr do sol, Edgar Wilson entende que não deve temer a morte. Ambos ocorrem involuntariamente num fluxo contínuo. De certa forma, o inevitável lhe agrada. Sentir-se passível de morrer fortalece suas decisões. Não importa o que faça, seja o bem, seja o mal, ele deixará de existir.

 

Distrai-se dos voos dos abutres e caminha mais alguns metros em outra direção, para a caveira de uma vaca atirada no meio da estrada. Nota que não foi atropelada. Os ossos estão intactos, nenhum sinal de fratura. O couro foi levemente oxidado, consumido pela exposição climática. Não há sinal de vermes necrófagos ou pequenos insetos a devorá-la. Edgar Wilson inclina ainda mais o corpo ao perceber uma colmeia presa às costelas da vaca. Apanha um galho de árvore caído no chão e cutuca a colmeia, mesmo sabendo que é perigoso. Nada acontece. Cutuca-a com mais força e a colmeia se parte. Não há abelhas. Percebe algo pastoso e brilhante. Leva a mão até a colmeia e arranca um favo de mel. Cheira-o. Toca a ponta da língua. Diferente do que imaginou, não está podre. Come um pouco do mel. Agradam-lhe as pequenas explosões do favo rompendo em sua boca, algumas lascas muito finas que se prendem entre os molares superiores. Lambe o excesso de mel nos dedos e os limpa no macacão.

 

(MAIA, Ana Paula. Enterre seus mortos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 71-72.)

 

Considerando que o texto é uma manifestação da linguagem que transmite uma mensagem de um autor para um leitor, sobre o texto de Ana Paula Maia, é possível inferir que:

  1. O mistério da morte não é naturalmente aceito pelo personagem.
  2. A partir de cenas brutais, deve-se repensar o modo como vivemos.
  3. O nascimento e a morte, eventos limite da vida, possuem pontos de convergência.
  4. A expectativa de vida após a morte é imprescindível para que sejamos seres viáveis.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Nascimento e morte são apresentados pelo texto como fenômenos interligados: a frase "Todo nascimento é também um pouco de morte." afirma explicitamente essa relação, indicando que o princípio e o término da vida compartilham pontos de contato.

Essa convergência se revela tanto no enunciado direto quanto nas imagens sensoriais: Edgar observa animais que nascem mortos ou morrem logo após nascer, e manipula restos orgânicos (caveira, colmeia, mel) sem distinção moral entre vida e putrefação. Essas cenas reforçam a ideia de continuidade.

Além disso, a aceitação do personagem — "não teme o pôr do sol... o inevitável lhe agrada" — mostra que ele percebe nascimento e morte como partes do mesmo fluxo existencial, isto é, como eventos limite que se tocam e se explicam mutuamente.

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