Questão FC387036
O dia começou completamente sexta-feira, pensei enquanto levava o saco de lixo para a calçada. Um céu úmido chuviscava irritação sobre a cidade indefesa e fria, obrigando-me a prot
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
O dia começou completamente sexta-feira, pensei enquanto levava o saco de lixo para a calçada. Um céu úmido chuviscava irritação sobre a cidade indefesa e fria, obrigando-me a proteger o rosto do vento molhado e escolher o lugar onde punha os pés. As lojas vizinhas também levantaram suas portas onduladas. Minha rotina dos dias pares, nossa escala entre as balconistas.
A três passos do poste, junto ao qual deixaria minha carga, dois sapatos largos e sujos, tamanhos, o direito esfregando-se na guia para se livrar do barro. Meu sangue parou e todo meu corpo também. Só meus olhos mantinham alguma vida, mas que não ousavam subir além de dois palmos das pernas. O medo grudava-me no céu da boca um gosto indeciso entre o morno e o frio. Qualquer coisa amarga em uma colher: toma, minha filha, vai te fazer bem. Eram os sapatos de meu pai. Por tudo que sei dele, eram os sapatos de meu pai.
Já não sei se o que me resta dele, de meu pai, são reminiscências minhas, situações que eu mesma vivi, ou são as lembranças de minha mãe, casos que ela me contava com olhos brilhantes, muitas vezes de lágrimas, outras vezes de pura paixão.
Paralisada no meio do caminho, não conseguia desgrudar os olhos daquele sapato embarrado esfregando-se na quina da guia. A garoa apertava mais densa, e um pequeno córrego escorria pelo meio-fio. Quase alegre. A poucos metros abaixo, entretanto, sem nenhuma resistência, despejava-se na boca de lobo e sumia na face escura da sexta-feira. Lá embaixo.
(BRAFF, Menalton. A coleira no pescoço. São Paulo: Bertrand Brasil. p. 77-80. Fragmento.)
A partir da leitura atenta do texto, pode-se inferir que a presença de “dois sapatos largos e sujos, tamanhos, o direito esfregando- se na guia para se livrar do barro” (2º§) provoca no narrador o seguinte sentimento:
- Receio.
- Mágoa.
- Ímpeto.
- Desilusão.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Receio é a melhor interpretação porque o trecho descreve reações físicas e psíquicas típicas do medo, não de outra emoção. A narradora sente um congelamento do corpo e uma inibição do olhar diante dos sapatos.
"Meu sangue parou e todo meu corpo também. Só meus olhos mantinham alguma vida, mas que não ousavam subir além de dois palmos das pernas."
Esses elementos apontam para uma resposta de susto e apreensão, isto é, paralisia associada ao receio.
Além disso, a frase "O medo grudava-me no céu da boca um gosto indeciso entre o morno e o frio" explicita a emoção sentida: o termo medo aparece de forma explícita e sensorial, reforçando que a emoção provocada pelos sapatos é o receio.
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