Questão FC387037
Os dias lindos Acontece em abril nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma aut
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
Os dias lindos
Acontece em abril nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. A temperatura ficou amena, conduzindo à revisão do vestuário. Protege-se um tudo-nada o corpo, que vivia por aí exposto e suado, bufando contra os excessos da natureza. Sob esse mínimo de agasalho, a pele contente recebe a visita dos dias lindos.
A cor. Redescobrimos o azul-correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fábricas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar os vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.
O ar. Ficou mais leve, ou nós é que nos tornamos menos pesadões, movendo-nos com desembaraço, quando, antes, andar era uma tarefa dividida entre o sacrifício e o tédio? Tornou-se quase voluptuoso andar pelo gosto de andar, captando os sinais inconfundíveis da presença de dias lindos.
Foi certamente num dia como este que Cecília Meireles escreveu: “A doçura maior da vida flui na luz do sol, quando se está em silêncio. Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados”. Porque a primeira consequência da combinação de azul e leveza de ar é o sossego que baixa sobre nosso estoque de problemas. Eles não deixam de existir. Mas fica mais fácil carregá-los.
Então, é preciso fazer justiça aos dias lindos, oferecer-lhes nossa gratidão.
A reação em cadeia pode contribuir para amenizar um tanto o que eu chamo de desconcerto do mundo. De onde se conclui: deixar de lado, mesmo por instantes, o peso dos acontecimentos mundiais trágicos, esmagadores, para degustar a finura da atmosfera e a limpidez das imagens recortadas na luz, é um passo dado para reduzir o desconcerto, na medida em que a boa disposição de espírito de cada um pode servir de prefácio, ou rascunho de prefácio, à pacificação, ou relativa pacificação, dos povos e seus dominadores. Em vez de alienação, portanto, o prazer dos dias lindos é terapia indireta.
(Carlos Drummond de Andrade. Texto publicado no Jornal do Brasil, 1970. Fragmento.)
Depreende-se que o título “Os dias lindos” justifica como ideia central do texto:
- A opinião de Cecília Meireles sobre um dia comum redescobrindo o azul nítido do céu.
- A vida agradável nos dias mais amenos e a forma como agimos diante dos desafios diários.
- As percepções de um ficcionista sobre a era tecnológica que desconcerta o mundo em que vivemos.
- As lembranças inconfundíveis do autor sobre o mês de abril que surge, anualmente, contra os excessos da natureza.
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Gabarito
B
Comentário do professor
O título remete à ideia central de que os dias amenos promovem uma vida agradável e influenciam nossa maneira de agir diante dos desafios cotidianos.
O texto descreve sensorialmente o calor ameno, o azul do céu e o ar leve, e logo relaciona essas impressões ao efeito sobre o ânimo: nasce um sossego que torna os problemas mais fáceis de suportar.
Na conclusão, o autor explicita a conclusão prática: ao desfrutarmos desses dias, praticamos uma espécie de terapia indireta — a boa disposição individual pode ser prefácio de paz e ajudar a reduzir o desconcerto do mundo.
Assim, o título sintetiza tanto a impressão sensorial dos dias lindos quanto sua função de alterar positivamente nosso comportamento diante das dificuldades.
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