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Questão FC387040

Considere o texto a seguir para responder a questão As caridades odiosas Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pen

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Considere o texto a seguir para responder a questão

 

As caridades odiosas

 

Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchava na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.

 

− Um doce, moça, compre um doce para mim.

 

Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.

 

Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.

 

De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você...

 

Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.

 

− Que outro doce você quer? Perguntei ao menino.

 

Este, que mexendo as mãos e a boca ainda espera com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com uma delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade

.

− Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los... Mesmo os doces estavam tão acima do menino. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:

 

− Afinal uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas, mas ninguém quis dar.

 

Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de... E para isso foi necessário que outros não lhe tivessem dado doce.

 

E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora, sozinha, meus pensamentos voltavam lentamente a ser os anteriores, só que inúteis.

 

(LISPECTOR, Clarice. As caridades odiosas. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1984. Adaptado.)

 

Sobre a crônica “As caridades odiosas”, que faz parte do livro “A descoberta do mundo”, de Clarice Lispector, assinale a afirmativa INCORRETA.

  1. No desfecho da crônica, a personagem percebe o quanto seus problemas se tornaram pequenos diante dos problemas do garoto.
  2. O pedido do menino desperta na personagem uma série de sentimentos conflitantes e que a leva a confrontar suas próprias contradições.
  3. A caridade é um tipo de ação que evidencia a crueldade do sistema e o desperdício do que lhe é inerente – tecendo uma própria crítica da caridade.
  4. O menino causa um misto de piedade, vergonha e revolta na personagem, levando-a a refletir sobre os problemas sociais que a maioria das pessoas não consegue e não quer enxergar.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A afirmativa é incorreta porque interpreta a crônica como denúncia direta de um “sistema” e do seu “desperdício”, quando o foco do texto é outro: Clarice explora a ambivalência moral da narradora e a dimensão íntima da caridade.

No conto, a ação de dar doces desencadeia sentimentos pessoais — vergonha, vaidade, gratidão, autocrueldade — e uma reflexão sobre a motivação de quem pratica o gesto. A observação da caixeirinha (“uma alma caridosa apareceu”) e a pergunta da narradora (“temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem?”) mostram preocupação com a imagem, não uma crítica estrutural ao sistema.

Assim, a crônica tece uma crítica da hipocrisia individual e da condição moral do sujeito, não uma crítica programática da caridade como evidência da crueldade ou do desperdício do sistema social.

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