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Questão FC387050

Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu. Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdur

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Os livros e suas vozes

 

Se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu. Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível. Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?

 

Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre, o encontro com o eco, essa música matinal dos sabiás, lagartixas pelos muros, enterros, borboletas, o carnaval, retratos de álbum, o uivo dos cães, o cheiro do doce de goiaba, todos os tipos populares, a pajem que me contava com a maior convicção histórias do Saci e da Mula-sem-cabeça (que ela conhecia pessoalmente); minha avó que me cantava rimances e me ensinava parlendas...

 

Mais tarde os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. Foi ainda nessa área que apareceram um dia os meus próprios livros, que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas.

 

Sempre gostei muito de livros e, além dos livros escolares, li os de histórias infantis, e os de adultos: mas estes não me pareciam tão interessantes, a não ser, talvez, “Os três mosqueteiros”, numa edição monumental, muito ilustrada, que fora de meu avô. Aquilo era uma história que não acabava nunca; e acho que esse era o seu principal encanto para mim. Descobri o dicionário, uma das invenções mais simples e mais formidáveis e também achei que era um livro maravilhoso, por muitas razões.

 

Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo.

 

(Cecília Meireles. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997. Fragmento.)

 

É possível inferir que o título do texto:

  1. Ignora a fantasia estimulada pelos livros.
  2. Expressa o poder transformador dos livros.
  3. É paradoxal em relação ao que se discorre no texto.
  4. Aponta meramente recordações da infância da autora.
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Gabarito

B

Comentário do professor

O título "Os livros e suas vozes" aponta diretamente para o poder transformador dos livros: sugere que eles não são objetos neutros, mas entes que falam e atuam sobre a alma do leitor.

No texto, a autora afirma que os livros "deixaram sair suas realidades e seus sonhos", mostrando como leitura integra imaginação e experiência, modificando a percepção do mundo.

Ao recordar que, mesmo antes de saber ler, imaginava os livros "cheios de vozes", fica explícita a ação transformadora: os livros dão forma às lembranças, ampliam sensações e criam novos modos de ver.

Elementos como o encantamento pelo dicionário e o impacto de leituras variadas comprovam que os livros moldam pensamentos e desejos, não apenas registram fatos.

Portanto, o título sintetiza a ideia central: os livros transformam quem os ouve e, por isso, têm voz própria e efeito duradouro.

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