Questão FC387063
Texto para responder à questão Sozinhos Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, lei
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
Texto para responder à questão
Sozinhos
Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
– Ronca.
– Não ronco.
– Ele diz que não ronca – comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo.
Ficam os dois sozinhos.
– Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer – diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. – É o que eu vou fazer!
Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
– Humrfm – diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
– Rarrá! – diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!
– Rarrá! – diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida.
Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio – por causa dos roncos – não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes.
É um diálogo sussurrado.
“Estão prontos?”
“Não, acho que ainda não…”
“Então vamos voltar amanhã…”
(VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.)
Ao considerar a obra de Luís Fernando Veríssimo, infere-se que o autor retrata sobre um fato comum da realidade de muitos casais idosos atualmente. Em seu contexto geral, é possível compreender que o texto:
- Versa sobre as doenças relacionadas ao envelhecimento, dentre elas se destaca a demência, que afeta a convivência entre os casais de idosos.
- Aborda apenas a convivência permeada por conflitos e desavenças que os casais adquirem ao morar sozinhos por longos anos, mesmo com a presença rotineira dos filhos.
- Apresenta um casal que vive junto há muitos anos após criar sua família – onde um conta apenas com a companhia do outro – e que, apesar das divergências, permanece unido.
- Informa e exemplifica fatos considerados incomuns que ocorrem rotineiramente nas madrugadas, em específico com casais da terceira idade que não possuem companhia de terceiros.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa aponta corretamente que o texto retrata um casal que vive junto após criar a família, alguém cuja companhia imediata é apenas o outro. O trecho "Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro." revela esse quadro de convívio restrito e cotidiano.
As discussões e a implicância são traços recorrentes, mas não rompem a convivência: o texto mostra que eles continuam a partilhar a casa e a rotina, sinal de que a relação se mantém. A expressão "Ficam os dois sozinhos." confirma a presença contínua e mútua.
Mesmo com o tom irônico do narrador e o desfecho surpreendente, a conclusão é a mesma: o autor enfatiza a permanência da companhia entre os idosos, ou seja, que, apesar das divergências, o vínculo permanece unido.
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