Questão FC387070
O cajueiro O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta d
Interpretação de Textos (Compreensão)
Instituto Consulplan · 2025
O cajueiro
O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.
Eu me lembro do outro cajueiro que era menor, e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá- -manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente “tala”) e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, “beijos”, violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.
No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.
A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram. Diz que seus filhos pequenos se assustaram; mas depois foram brincar nos galhos tombados.
Foi agora, em fins de setembro. Estava carregado de flores.
(BRAGA, Rubem. Melhores Contos. Seleção de Davi Arrigucci Jr. Global Editora – 11ª edição, 2001.)
A crônica “O cajueiro”, de Rubem Braga, é uma narrativa comovente sobre a relação entre o narrador e um cajueiro, que é descrito como uma árvore majestosa. Explícita ou implicitamente, é possível inferir que as ideias a seguir estão presentes no texto, EXCETO:
- O cajueiro representa a infância, a natureza e a conexão do autor com o passado.
- A queda da árvore, embora anunciada por uma carta, é um evento que marca a percepção do tempo e da finitude.
- A queda do cajueiro evoca tristeza e nostalgia, mostrando como a natureza e a memória se entrelaçam na vida do autor.
- O autor evidencia a lembrança de momentos felizes com o cajueiro; no entanto, apenas os poetas, entre os humanos, parecem capazes de reconhecer e apreciar a natureza.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa afirma que apenas os poetas seriam capazes de reconhecer e apreciar a natureza, mas isso não se sustenta no texto.
O narrador descreve memórias coletivas: meninada que cobiçava as bolas da saboneteira, crianças que subiam e brincavam no cajueiro, irmã que envia a carta e o cuidado em mostrar a árvore a Carybé. Essas ações mostram apreço de pessoas comuns, não apenas de poetas.
Além disso, a própria linguagem do narrador, emocionada e descritiva, revela um sentimento partilhado pela família e pelo bairro — a natureza é valorizada por vários agentes humanos, não exclusiva a um grupo artístico.
Portanto, a afirmação de que só poetas apreciam a natureza é uma inferência indevida e contrária às evidências do conto.
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