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Questão FC387079

Texto para responder à questão A borboleta amarela Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses ins

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto Consulplan · 2025

Texto para responder à questão

 

A borboleta amarela

 

Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.

 

Era na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da A.B.I.. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria uma jornalista? – pensei com certo tédio.

 

Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse: ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera no seu voo sassaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento. Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. Nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os fez com borboletas – o que, aliás, é uma boa ideia. Quando eu o mandar fazer os jardins de meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare... Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.

 

A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente, e eu devesse segui- -la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos ou se vendo –, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel. Naquele ângulo há um jardinzinho, atrás da Biblioteca Nacional. Ela passou entre os ramos de uma acácia e de uma árvore sem folhas, talvez um “flamboyant”; havia, naquela hora, um casal de namorados pobres em um banco, e dois ou três sujeitos espalhados pelos outros bancos, dos quais uns são de pedra, outros de madeira, sendo que estes são pintados de azul e branco. Notei isso pela primeira vez, aliás, naquele instante, eu que sempre passo por ali; é que a minha borboleta amarela se tornava sensível às cores.

 

Ela borboleteou um instante sobre o casal de namorados; depois passou quase junto da cabeça de um mulato magro, sem gravata, que descansava num banco; e seguiu em direção à Avenida. Amanhã eu conto mais.

 

(BRAGA, Rubem. A Borboleta Amarela. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1963. p. 170-176. Adaptado.)

 

A obra de Rubem Braga retrata um cenário comum do cotidiano, ou seja, evidencia a principal característica de uma crônica. Considerando o contexto textual, assinale a afirmativa correta.

  1. Ao relatar seus trajetos do dia a dia, o personagem se mostra sem nenhum vínculo com os ambientes que perpassa.
  2. O personagem é uma pessoa atenta aos detalhes do cotidiano e, principalmente naquele dia, se encantara com a borboleta.
  3. Todas as pessoas possuem um olhar minimalista com o ambiente em que estão inseridas, dando atenção aos pequenos e grandes detalhes.
  4. Durante a rotina corrida em grandes centros urbanos, as pessoas não possuem o hábito de apreciar os pequenos detalhes assim como o personagem.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A alternativa está correta porque o narrador, em primeira pessoa, demonstra claramente ser um personagem atento aos detalhes do cotidiano: ele descreve ruas, vitrines, tipos de mármore, árvores, bancos e mesmo a indumentária de transeuntes enquanto segue a borboleta.

O texto traz observações minuciosas — nomes de ruas, o brilho das asas, a passagem entre colunas — e comentários introspectivos ("a minha borboleta!") que revelam ter-se encantado naquele dia com o inseto.

Esse fascínio transforma uma cena comum em foco da atenção: a borboleta funciona como motivo para percepções sensoriais e emotivas, caracterizando a crônica pela capacidade de captar o trivial com sensibilidade.

Portanto, o enunciado resume bem a postura do narrador: observador atento e, naquele momento, tomado pelo encanto da borboleta.

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