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Questão FC387100

Uma velhinha é uma velhinha Não sei se os outros pensam assim, mas, quando vejo uma velhinha e procuro imaginar que ela já tenha sido jovem, e tido um namorado, e feito todas as co

Tipologia e Gênero Textual

Instituto Consulplan · 2025

 

Uma velhinha é uma velhinha

 

Não sei se os outros pensam assim, mas, quando vejo uma velhinha e procuro imaginar que ela já tenha sido jovem, e tido um namorado, e feito todas as coisas a que o amor obriga, por mais que eu queira, não acredito. Ou, se acredito, não entendo. Porque uma velhinha é uma velhinha, tal qual uma rosa, que é uma rosa. Dá-me uma ideia do ser humano eterno, que sempre houve e não deixará de haver, com sua golinha de rendas, seu chapéu com aplicação de jasmins, seu guarda-chuva, seus sapatos de fivelas. As de Paris passeiam, de manhã, em Auteuil, comprando carne para os gatos, queijos e legumes para si. Passeiam seus cães, à tardinha, no bois e, enquanto dão-lhes folga, discutem, umas com as outras, sobre a última e a próxima guerra. Queixam-se do frio, da bruma constante e, se um sinal de luz aponta para os lados de Versailles, dizem todas, ao mesmo tempo, numa felicíssima esperança: “Il va faire beau!” Adoram o sol. Que engraçado vê-las ao sol! Ficam mexeriqueiras, rigorosas e bisbilhotam a vida de todas as velhinhas ausentes. Voltam à humildade de antes, quando o sol se cobre e a praça esfria outra vez, mandando-as para casa. Passava horas vendo as velhinhas de Paris. Na Ferme d'Auteuil, entre cinco e seis da tarde, tomavam seu chá, lentamente, e era uma delícia ouvi-las conversar. Mas nunca me consenti acreditar que houvessem sido mocinhas, ou que houvessem tirado aquela espécie de farda, um dia sequer, em suas vidas.

 

Há pouco tempo, em um café de Friburgo, sentou-se uma velhinha para conversar. Precisava de um dinheiro, para caiar a casa e ajudar no casamento de uma neta. Aceitou uma xícara, beliscou de uns doces, e foram tantas as perguntas, que acabou contando sua vida. Tivera um namorado, andara fazendo suas facilidades com ele. Depois, casou com outro. Por fim, morreu-lhe o marido e, na campanha por um novo casamento, dera-se a duas ou três fantasias pouco recomendáveis, em senhoras viúvas. Isso representou para mim um choque muito grande. De repente, as velhinhas de Auteuil deixaram de ser os seres eternos que eu, sabiamente, imaginara. Todas se transformaram, violentamente, em gente igual a mim, que comete dos meus erros e, como eu, de felicidade em felicidade, de abraço em abraço, de ilusão em ilusão, inebriadamente, envelhece...

 

(MARIA, Antônio. Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.)

 

Assinale uma característica observada ao longo do texto.

  1. Aborda apenas o humor em seu contexto.
  2. Apresenta uma única personagem e possui uma narrativa extensa.
  3. Possui linguagem impessoal devido ao meio de circulação desse texto – o jornal.
  4. Retrata uma temática do cotidiano, discorrendo por uma linguagem acessível aos leitores.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa aponta que o texto trata de uma **temática do cotidiano** e usa **linguagem acessível**. De fato, a narrativa descreve cenas comuns — velhinhas passeando, tomando chá, comprando alimentos — aproximando o leitor de situações rotineiras.


O narrador em primeira pessoa relata observações e uma pequena anedota (a velhinha no café de Friburgo), o que confere tom coloquial e próximo. Expressões como “aceitou uma xícara” e a fala direta “Il va faire beau!” reforçam o caráter vivo e cotidiano do relato.


A construção frasal é simples, o vocabulário é familiar e as imagens são concretas, favorecendo a compreensão imediata. Assim, o texto privilegia a **clareza** e a **identificação** do leitor com o tema diário do envelhecer e das pequenas rotinas.

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