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Questão FC387101

Texto para responder à questão Sozinhos Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, lei

Tipologia e Gênero Textual

Instituto Consulplan · 2025

Texto para responder à questão

 

Sozinhos

 

Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:

 

Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.

 

– Ronca.

– Não ronco.

– Ele diz que não ronca – comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.

 

Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo.

 

Ficam os dois sozinhos.

 

– Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer – diz ela. E em seguida tem a ideia infeliz. – É o que eu vou fazer!

 

Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.

 

– Humrfm – diz o velho.

 

Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. As ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias ideias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.

 

Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.

 

Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.

 

– Rarrá! – diz a velha, feliz.

 

Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!

 

– Rarrá! – diz o velho, vingativo.

 

E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida.

 

Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio – por causa dos roncos – não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes.

 

É um diálogo sussurrado.

 

“Estão prontos?”

 

“Não, acho que ainda não…”

 

“Então vamos voltar amanhã…”

 

(VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.)

 

O gênero crônica se caracteriza por textos, na maioria das vezes, curtos, com uma linguagem mais acessível ao leitor, sendo leve e objetiva em seu contexto. A crônica aborda os aspectos da vida, ou seja, do cotidiano, com intenções humorísticas ou irônicas. Considerando o contexto do texto lido, assinale a afirmativa correta.

  1. A crônica em análise possui um tom subjetivo, ou seja, o autor possui um ar lírico e poético em suas falas ao longo do texto.
  2. O texto retrata uma crônica histórica, versando sobre acontecimentos que ocorreram em momentos importantes da sociedade e de personagens consagrados.
  3. O texto é uma crônica jornalística, versando sobre reportagens de forma objetiva e seguindo a realidade dos fatos narrados, ou seja, a forma literal dos acontecimentos.
  4. Refere-se a uma crônica humorística, visto que o cronista chama a atenção do leitor abordando a história de um casal comum da terceira idade, utilizando traços cômicos do cotidiano.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Crônica humorística. O texto reúne as características centrais desse gênero: é curto, trabalha o cotidiano (um casal idoso em casa) e usa uma linguagem acessível e coloquial.

Predomina a ironia e o humor discreto, manifestos na forma como o cronista se dirige ao leitor, comenta a própria ideia e explora pequenas contradições da vida familiar.

A voz narradora intervém, faz piadas, provoca e conduz o leitor ao efeito cômico — desde a discussão sobre roncos até a gravação que revela um contraponto inesperado. Essa montagem de situações banais com um desfecho surpreendente é típica do humor de Luís Fernando Veríssimo.

Assim, por reunir situação cotidiana, linguagem coloquial, ironia e um desfecho que transforma o trivial em comicidade, a classificação como crônica humorística está justificada.

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