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Questão FC387122

Era uma vez, duas, três Não se passa no vestibular chutando as questões. Tem que se puxar, fazer valer o investimento. Em 2016, recebi um e-mail de um homem que eu não conhecia. El

Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)

Instituto Consulplan · 2025

Era uma vez, duas, três

 

Não se passa no vestibular chutando as questões. Tem que se puxar, fazer valer o investimento.

 

Em 2016, recebi um e-mail de um homem que eu não conhecia. Ele morava no Rio, mas estava na Patagônia, fazendo uma viagem de carro. Durante seu longo retorno para casa, fez um pit-stop em Porto Alegre e me convidou para jantar, mas não aceitei, mesmo ele tendo se esforçado. No e-mail, fez uma síntese de quem era, o que fazia, o que pensava, quais seus projetos e a razão de me escrever, além de anexar fotos da viagem, do seu carro, do seu rosto e até mesmo da sua carteira de identidade, o que me fez rir, demonstrava humor na sua intenção de provar que não era um serial killer.

 

Agradeci, dei uma trelinha para compensar o tempo que ele havia perdido escrevendo aquela mensagem que mais parecia um currículo, mas não me aventurei, jantei em casa.

 

Lembrei desta história quando, semana passada, recebi um e-mail de outro desconhecido. Vou trocar seu nome, mas a mensagem era a seguinte: Meu nome é Giba, há muito tempo desejo te conhecer pessoalmente ou trocar algumas “palabras” no celular.

 

Escreveu apenas isso – no cabeçalho, não no corpo do e-mail, que veio vazio. O retrato da penúria, a síntese desses tempos. Ele preferiu matar o assunto rapidinho. Se apresentar para quê? Revelou apenas o apelido e não se preocupou em explicar se o uso do estrangeirismo era erro de digitação ou resquício do idioma natal. Eu que lutasse.

 

É comum as pessoas reclamarem que tudo dá errado para elas, culpando as conspirações cósmicas, que nunca alinham com seus planos. O Giba ficou sem uma resposta privada, mas inspirou essa crônica de utilidade pública: não se passa no vestibular chutando as questões, não se vai bem numa entrevista de emprego sendo monossilábico. Tem que se puxar. Fazer valer o investimento.

 

Quem teve um poema publicado em uma revista, enviou uns 25. O turista que conseguiu uma passagem de avião barata ficou a madrugada inteira pesquisando promoções. Lembra quando dependíamos de ligações telefônicas para empresas que só davam ocupado? Quantas horas tentando, tentando, até ser atendido? Que bets, que nada: a melhor aposta é em si mesmo

Não somos prêmios para ninguém, não estamos em promoção, mas o exemplo do Giba serve de alerta: quem almeja algo, seja o que for, não pode ser tão preguiçoso. Que se dedique um pouquinho, até para demonstrar que tem alguma noção sobre as dificuldades da vida. Eu imagino o Giba deitado numa cama às quatro da tarde, abatido, entediado, escrevendo aquelas duas linhas entre uma soneca e outra. Já o carioca que perambulou pela Patagônia voltou a me escrever mais uma, duas, três vezes, e acabamos namorando. Não durou para sempre, mas foi divertido. Quando a persistência encontra a confiança, dá match.

 

(MEDEIROS, Martha. Era uma vez, duas, três. Jornal O Globo. Em: dezembro de 2024.)

 

Ao analisar a estrutura composicional da crônica, pode-se afirmar que há a presença de duas tipologias textuais: a narrativa e a argumentativa. A presença de sequências narrativas configura um argumento de:

  1. Autoridade.
  2. Comparação.
  3. Exemplificação.
  4. Raciocínio lógico.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa Exemplificação indica que a autora sustenta sua tese por meio de casos concretos: relatos e episódios que ilustram a ideia geral. Em vez de usar dados frios ou argumentos abstratos, ela recorre a situações vividas para tornar a conclusão mais crível.

No texto, as sequências narrativas — o e‑mail do carioca que viajou à Patagônia, o do “Giba”, as tentativas de quem busca passagem barata, o poeta que envia 25 textos — funcionam como exemplos que comprovam a tese principal: é preciso esforço e persistência para alcançar objetivos. Essas histórias não são mero enfeite; servem como evidência prática da afirmação.

Portanto, a presença de relatos e episódios configura um argumento por exemplificação: a autora ilustra e reforça sua opinião mostrando casos concretos que corroboram a conclusão.

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