Questão FC387124
– Credo, aquele estrelete?
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Instituto Consulplan · 2025
Vênus
Há seis anos, ele estava apaixonado por ela. Perdidamente. O problema – um dos problemas, porque havia outros, bem mais graves –, o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais. Quando se tem vinte ou trinta anos, seis anos de paixão pode ser muito (ou pouco, vai saber) tempo. Mas acontece que ele só tinha doze anos. Ela, um a mais. Estavam ambos naquela faixa intermediária em que ficou cedo demais para algumas coisas, e demasiado tarde para a maioria das outras.
Ela chamava-se Beatriz. Ele chamava-se – não vem ao caso. Mas não era Dante, ainda não. Anos mais tarde, tentaria lembrar-se de como tudo começou. E não conseguia. Não conseguiria, claramente. Voltavam sempre cenas confusas na memória. Misturavam-se, sem cronologia, sem que ele conseguisse determinar o que teria vindo antes ou depois daquele momento em que, tão perdidamente, apaixonou-se por Beatriz.
Voltavam principalmente duas cenas. A primeira, num aniversário, não saberia dizer de quem. Dessas festas de verão, janelas da casa todas abertas, deixando entrar uma luz bem clara que depois empalideceria aos poucos, tingindo o céu de vermelho, porque entardecia. Ele lembrava de um copo de guaraná, da saia de veludo da mãe – sempre ficava enroscado na mãe, nas festas, espiando de longe os outros, os da idade dele. Lembrava do copo de guaraná, da saia de veludo (seria verde musgo?) e do balão de gás que segurava. Então a mãe perguntou, de repente, qual a menina da festa que ele achava mais bonita. Sem precisar pensar, respondeu:
– Beatriz.
A mãe riu, jogou para trás os cabelos – uns cabelos dourados, que nem o guaraná e a luz de verão – e disse assim:
– Credo, aquele estrelete?
Anos mais tarde, não encontraria no dicionário o significado da palavra estrelete. Mas naquele momento, ali com o balão em uma das mãos, o guaraná na outra, cotovelos fincados no veludo (seria azul-marinho?) da saia da mãe, pensou primeiro em estrela. Talvez por causa do movimento dos cabelos da mãe, quando tudo brilhou, ele pensou em estrela. Uma pequena estrela. Uma estrela magrinha, meio nervosa. Beatriz tinha um pescoço longo de bailarina que a fazia mais alta que as outras meninas, e um jeito lindo de brilhar quando movia as costas muito retas, olhando adulta em volta.
Estrelete estrelete estrelete estrelete – repetiu e repetiu até que a palavra perdesse o sentido e, reduzida a faíscas, saísse voando junto com o balão que ele soltou, escondido atrás do taquareiro. Bem na hora que o sol sumia e uma primeira estrela apareceu. Estrela-d’Alva, Vésper, Vênus, diziam. Diziam muitas coisas que ele ainda não entendia.
(Caio Fernando Abreu. Além do ponto e outros contos. Editora Ática. 2019.)
Considerando a estrutura linguística das informações destacadas, assinale a alternativa INCORRETA.
- As palavras “memória” e “aniversário”, transcritas do texto, são acentuadas pela mesma razão.
- No trecho “Não conseguiria, claramente.” (2º§), a ação verbal “conseguiria” denota ideia de incerteza.
- Em “Voltavam principalmente duas cenas.” (3º§), a expressão grifada exprime circunstância de tempo.
- Em “[...] o problema inicial, pelo menos, é que era cedo demais.” (1º§), a locução adverbial destacada indica ponderação.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Na frase "Voltavam principalmente duas cenas.", a classificação da palavra principalmente como expressão de circunstância de tempo está equivocada.
Principalmente funciona aqui como um advérbio que indica predominância/ênfase — ou seja, qual é o elemento que se destaca entre vários possíveis. Classifica-se, portanto, como advérbio de modo/ênfase (ou de grau/quantidade), porque modifica o verbo voltavam ao indicar que, entre várias memórias, duas eram as mais recorrentes.
Advérbios de tempo seriam termos como ontem, hoje, sempre, depois, que situam a ação temporalmente. Como principalmente não indica quando a ação ocorreu, não expressa circunstância temporal.
Conclusão: a alternativa é incorreta por interpretar um advérbio de ênfase como se fosse um advérbio de tempo.
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