Questão FC387169
Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir. A arte de ser feliz Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo d
Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))
Instituto Consulplan · 2025
Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir.
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz. Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
(MEIRELES, Cecília. Escolha o seu sonho. 4. ed., Rio de Janeiro: Global Editora, 2016.)
Segundo o texto:
- A felicidade é uma importante emoção associada à concepção de sucesso e plenitude.
- A felicidade existe nas pequenas coisas cuja percepção depende da nossa capacidade de olhar.
- A experiência de vida da narradora é tomada de eventos superficiais e fúteis, sem relevância artística e poética.
- Quem dispõe de um jardim com flores tem maior chance de alcançar a felicidade em razão da graciosidade dessa vegetação.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A narrativa apresenta cenas simples — o ovo de louça com o pombo, o barco de flores, a mulher contando histórias, o homem que asperge água — e mostra como essas observações transformam o ânimo do eu lírico. Essa repetição de episódios evidencia que a felicidade brota de detalhes cotidianos.
O autor destaca, ainda, que nem todos percebem essas situações: algumas pessoas negam sua existência; outras afirmam que só existem diante daquela janela. Esse contraste leva ao ponto central: é a maneira de ver que torna essas cenas felizes.
Portanto, a ideia-chave é que a alegria reside em pequenas coisas e sua fruição depende da nossa capacidade de olhar — isto é, de atenção, sensibilidade e interpretação da realidade. Aprender a olhar é, então, aprender a ser feliz.
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