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Questão FC387205

Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir. Banhos de mar Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto n

Questões sem classificação de assunto (Língua Portuguesa (Português))

Instituto Consulplan · 2025

Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir.  

Banhos de mar

 

Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.

 

Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer(D). Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada(B) e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda, ainda na escuridão? De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamos depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.

 

Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito feliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

 

O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente caía-se num fundo de dois metros, calculo.

 

Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho(C): abria os dois braços, e as senhoras agarravam-se a eles para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.

 

O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em concha, eu as mergulhava nas águas e trazia um pouco de mar até minha boca: eu bebia diariamente o mar, de tal modo queria me unir a ele.

 

Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo. Mudávamos de roupa nas cabinas, e a roupa ficava impregnada de sal(A). Meus cabelos salgados me colavam na cabeça. Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus cabelos duros de sal. A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca.

 

(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1984.)

 

Em relação ao significado das palavras empregadas no texto, apenas uma NÃO está correta; assinale-a.

  1. “Mudávamos de roupa nas cabinas, e a roupa ficava impregnada de sal. – encharcada.
  2. “Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada [...] – matinal.
  3. “Havia um salva-vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: [...]”  – mixaria.
  4. “Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer.” – que é bom para a saúde.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Presente em "presente inaudito" não indica tempo, mas sentido de dádiva ou experiência recebida; é algo oferecido ou sentido como um dom.

Inaudito significa "inusitado, extraordinário", ou seja, nunca antes vivido ou ouvido.

Assim, a expressão quer dizer que a criança sentia uma alegria surpreendente e quase como um presente inesperado ao sair de madrugada.

Portanto, traduzir "presente inaudito" por matinal é inadequado: matinal refere-se apenas a "relativo à manhã" e não capta a ideia de surpresa, novidade ou valor afetivo transmitida pelo texto.

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